a louca da casa é a imaginação. são estes devaneios autônomos que nos tomam. todos os pedaços de pensamento que ganham vida própria e deixamos crescer indefinidamente. as possibilidades. os personagens. as opiniões inflamadas. os outros. a louca da casa é um livro da rosa montero que me despertou a vontade de escrever sobre tudo e sobre qualquer coisa. a louca da casa é o diabo na rua, no meio do redemoinho.
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segunda-feira, 13 de abril de 2015
legendando uma trajetória
Wim Wenders dirigindo documentário sobre o fotógrafo Sebastião Salgado. É difícil imaginar que isto possa dar errado ou trazer qualquer coisa menor que grande. Os nomes, os dois, são fortes indicadores de qualidade e de um olhar incomum aliado à perícia técnica. O longa conta ainda com a codireção de Juliano Ribeiro Salgado, filho do fotógrafo, que registrou várias imagens de viagens ao lado do pai antes que Wenders entrasse no projeto.
Wenders com Sebastião e Juliano Salgado
O documentário conta um pouco da longa trajetória do renomado fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado e apresenta seu ambicioso projeto "Gênesis", expedição sua, feita jornada, em busca do planeta como nasceu, com o objetivo registrar, a partir de imagens, civilizações e regiões do mundo, até então inexploradas.
O ‘Sal da Terra’ é um retrato raro e muito pessoal do fotógrafo brasileiro e apresenta o homem por trás do fotógrafo. O filme traz fragmentos da trajetória pessoal do artista, mas se concentra no relato de suas impressões ao avaliar seu trabalho e nos contextualizar dos conflitos que acompanhou com sua câmara. É uma obra ancorada nas imagens produzidas por ele e sua contextualização, portanto, com sua análise e reflexão sobre elas.
Alinhado à obra do fotógrafo, Wenders foca em tomadas em preto e branco, retratando Sebastião em ambientes de trabalho e também colhendo depoimentos com a câmera em close. Entre cenas em preto e branco, cenas coloridas de arquivos pessoais e um incontável número de fotografias, pinta-se um retrato original da obra de Salgado, com o próprio explicando alguns de seus trabalhos mais marcantes e também abordando os sentimentos que tinha a cada experiência. Original pelo ângulo dado e pelo formato, original por trazer as histórias por trás das fotografias.
O documentário nos traz, portanto, as histórias que legendam as fotos e o papel de Salgado como fotógrafo adquire outros significados, nos contextualizando de seu olhar. São as histórias por traz de suas jornadas que compõem cada quadro do filme apresentando, aqui e ali, trechos da vida do fotógrafo narrados tanto por ele mesmo, quanto pelos dois diretores, contextualizando suas principais séries. Trabalhadores, Êxodos e, principalmente Gênesis, são reconstituídas por meio das memórias do protagonista e seus parceiros.
Fotografia da série 'Gênesis'
Em meio à produção de Êxodos, Salgado se dirige a Ruanda, à busca de imagens dos significativos deslocamentos populacionais, ali em evidência. O cenário que ele encontra, contudo, ultrapassa largamente os fortes parâmetros de crueldade que seu trabalho de intensos significados sociais lhe deu. Salgado se vê diante do horror. “Adoeci. Não tinha nenhuma doença infecciosa no corpo. Mas minha alma estava doente”, ele diz no filme. A arqueologia daquelas fotos machuca e constrange.
Desta ‘doença’ e da convicção de que o homem é lobo do homem, nasce o Instituto Terra, pois para curar a alma, Salgado se volta para a natureza . Assim, dessa fase emergem o Instituto Terra, com o replantio de mata atlântica na região da fazenda de seus pais, em Aimorés, e o projeto Gênesis, ponto de inflexão em sua carreira.
Ao longo do filme, a evidente relação construída com cada objeto de fotografia e, por fim, a força da natureza no Instituto Terra e de suas convicção neste projeto, evidenciam como um processo, uma jornada, levou a outro e a ONG criada por ele e sua esposa em Aimorés – MG, inspirou o ensaio fotográfico Genesis, considerado por ele como sua homenagem ao planeta, retratando o homem como parte da natureza.
O Instituto Terra começa a provar que a destruição da natureza pelo homem é reversível pelo próprio homem e a floresta é a solução perfeita para encerrar este belo e sensível documentário, como declaração de amor tanto ao homem quanto ao planeta. Ouvimos, assim, Wenders refletindo sobre a imagem de Salgado após todo o trabalho e produção consequente: “algo que sabia sobre este Sebastião Salgado era que ele realmente se importa com gente, porque, afinal, gente é o sal da terra.”
domingo, 29 de março de 2015
dor e doçura
Impotente diante do inexorável, ainda assim, estabelecendo
alguma luta, sabendo-na vã. Sem épica possível, Juliane Moore nos conduz pelos
descaminhos crescentes e inevitáveis do Alzheimer.
Filme belo, franco e constrangedor, ‘Para sempre Alice’,
traduz para o espectador o desvanecer de sentidos produzido pela doença. Assim,
na pele de Alice, uma brilhante professora universitária de linguística,
afetada precocemente pelo mal de Alzheimer, Moore exibe a dose certa de força e
vulnerabilidade. A Dra Alice Howland é,
assim, uma renomada professora universitária com um casamento feliz com um
pesquisador, três filhos com problemas normais, a quem, ao redor dos 50 anos,
as palavras começam a faltar. Diagnóstico rápido, um caso raro de Alzheimer
precoce, de prognóstico conhecido, o começo do fim de uma vida útil.
Começando por estas palavras que lhe fogem, se perdendo
pelas ruas de Manhattan, deixando passar compromissos, ela vai descobrindo
rastros de seus lapsos no quotidiano e assim nos apresentando o doloroso
(des)caminho do Alzheimer. Dar laço no cadarço se torna uma tarefa árdua porque
muitas etapas; identificar a filha-atriz em uma peça de teatro, entre tantas
outras, é tarefa árdua. Qualquer estímulo a tira do caminho a que se propunha e
a faz se perder... de si, esquecendo o que fazia, o que queria ou buscava. Como
ela mesma descreve, ela segue aprendendo a arte de perder. “This is hell, but
it gets worse”, traduz ela.
E de perda em perda, a impotência diante do tempo... e a frustração
decorrente. Como seguir em frente quando
não há mais nada atrás? O que pode sustentar nossos propósitos, senão a
memória? O filme radiografa o passo a passo da doença, traduzindo –a gradativa
e duramente, a cada cena e Juliane, assim, desfia dor e doçura a cada passo, a
cada lapso.
É uma lenta e inexorável perda de si mesma. Os detalhes mais
comoventes estão em suas desesperadas tentativas de não perder completamente o
rumo de suas tarefas cotidianas, criando lembretes para si mesma das coisas
mais banais. Assim, ela se mune de técnicas e artifícios para não esquecer e persistente,
exercita sua memória exaustivamente. E aí, fica a dor diante da perda da força
do seu querer e de qualquer controle sobre toda função cognitiva, sobre tudo
que ela construiu toda a vida.
Em franco processo de aniquilamento, de deixar de ser quem
um dia foi, Juliane dá um tom franco às perdas que se seguem. Não há
excessos melodramáticos. Uma abordagem franca de um drama tão devastador.
Falou alto em mim, a identidade em alguns momentos. Na perda
do controle sobre si mesmo e sobre o querer, sobretudo. Na tentativa permanente
e incansável de se reencontrar, sabendo que o eu mesmo não está mais lá. Nunca está
após tudo tanto. Eu sou é eu mesma, mas eu mesma outra. Belo e constrangedor, o
filme.
domingo, 22 de março de 2015
estranhamento microtonal
Nunca havia lido ou ouvido nada destes ‘Omnikestra’. De sua
música ou do projeto e sua origem. Minha convicção, ao comprar ingresso para o
show, falava o nome do Tom Zé. Fui
porque sua participação denotava, para mim, referência e, de certa forma,
anuência. E assim, me bastava.
Chegando lá, umas três horas antes do show, detalhe-se, com
o intuito de estudar enquanto esperava (porque me descobri produtiva em
situações espera), descubro que meu tablet não comporta os vídeos que pedem
meu programa de estudos. E aí uma dúvida se plantou entre mim e o evento:
ficaria ali e perderia três horas planejadas de estudo ou voltaria para casa para estudar
e perderia o show?
Jantando na comedoria enquanto me decidia naquela ‘aposta’,
ou não, eis que chega Tom Zé e um dos Omnikestra e se colocam ali, à minha
frente, para um jantar pré show.
Sua leveza e displicência, ali na comedoria, com os
atendentes e seu entorno, me fizeram, a princípio, ficar. Li novamente o
prospecto para saber e me certificar daquilo a que me propunha e tentar
encontrar alguma certeza, avalizada por meu companheiro de jantar.
Grupo inédito, o Omnikestra reúne músicos de diferentes
gerações que têm relação com a obra e pesquisa de Walter Smetak. O artista
suíço, músico violoncelista, compositor, inventor de instrumentos musicais,
escultor, e escritor Anton Walter Smetak mudou-se para o Brasil em 1937 e promoveu intensa pesquisa de experimentação
sonora com apropriação da matéria e do ambiente local.
Li ali que “muitos dos instrumentos feitos por Smetak
utilizavam cabaças, que remetiam aos instrumentos hindus, africanos e dos
índios brasileiros , assumindo um caráter fortemente simbólico. Smetak usou o
termo ‘Plásticas Sonoras’ para denominar essas criações, que envolvem a
contemplação visual do objeto, sua potencialidade como instrumento gerador de
som e a simbologia da qual está impregnado”.
O grupo Omnikestra é, assim, composto por
diversos inventores de instrumentos e improvisadores que trabalham com a
microtonalidade (vídeo) entre outras técnicas exploradas pelo homenageado.
E bem, para alguém bem pouco entendedora de palavras, versos
e trovas, qualquer teoria, enfim, sobre o universo musical, me pareceu algo experimental ao extremo, com
alguma cor do Tom Zé, dada sua escolha e participação.
Pois, show começado, não me encontrei, não encontrei a
música e ela tampouco veio ‘falar’
comigo. Achei bem uma confusão de ruídos orquestrados, em instrumentos feitos
inusitados (eufemismo), em modos de tocar estranhos, produzindo uma mistura de
barulho a que não se consegue classificar como música.
Foi tão sério o
estranhamento que nem esperei o Tom Zé, de quem me despedi na comedoria com
um até daqui a pouco, dado que o veria
no show conseguinte. Com dez minutos de show, já queria me levantar. Mas,
resolvi me segurar até trinta minutos de show e acabei ficando quarenta e cinco
minutos para rabiscar estas impressões que traço agora.
O folheto falava de um estranhamento potencialmente
inspirador. Em mim foi questionador ... desta minha ânsia de conhecer tudo. O melhor da noite, foi minha saída antecipada
com passagem pela comedoria, recheada com um arroz doce com cobertura de paçoca
que me encheu a noite de doçura.
domingo, 8 de março de 2015
fábula do erro
O dia de hoje foi um daqueles categorizados como iniciados com os dois pés esquerdos. Foi, na verdade, sem lado errado (ou certo), mas um dia que deveria ser desclassificado no calendário. Dia para não existir.
Um erro atrás do outro, dos menores aos inexplicáveis, nada
progride, tudo agarra ou volta. Não estudei como planejado e prometido a
ninguém menos que a mim mesma. Não
escrevi no blog, não li jazz, não li jornal, não vi filme, vi show errado, reticências
muitas, todas erradas e tortas.
Comecei o dia estreando nesta tragédia, feita comédia da
vida privada, enviando email de foro íntimo para destinatário incorreto. Sem
querer e sem perceber. E só me dei conta ao receber resposta desentendida do
tema tratado.
No andamento da tarde, como não conseguia, de maneira
nenhuma, estudar, pensei em por em prática algo que está nos planos desde que
me livrei dos conturbados finais de semana monográficos: me colocar em dia com
o roteiro de exposições de arte de São Paulo, tão absolutamente fora dos
trilhos, a monografia me deixou.
Havia pensado em uma exposição da obra do artista plástico,
arquiteto-paisagista Burle Marx na Pinacoteca, mas repensei para as bandas de
Marina Abramovic, em meu SESC favorito. Como tinha show no SESC à noite, eu
deixaria Burle Marx para amanhã e já ficava por lá lendo meu livro de jazz,
espera feita prazer e ponto.
E fui. Chegando lá, quase trombei com a própria no átrio do
principal espaço de convivência da Lina. Não me dei conta. Pensei: “ó... esta
deve ser uma pessoa conhecida, cercada de pessoas com câmera fotográfica ou com
bloco de notas... deixa ver quem é.” Fui chegando por trás do bando e vi que
falavam inglês. Um inglês de estrangeiro, entendível, portanto. Me aproximei e vi a sérvia Abramovic, em carne
e osso, ali na minha frente.
Pensei imediatamente que aquele deveria ser um dia especial
na exposição que foi aberta, segundo dizem os jornais, no dia anterior. Com a
presença da artista para ilustrar um histórico muito bem recheado de
performances. E era um dia especial. E era só para convidados. E não pude
entrar.
Com a cara na porta, pensei que não dava tempo de procurar
outra expo antes do show. Que me sentaria ali, pelas poltronas do confortável
espaço de convivência e, com uma cervejinha e um lanche, seguiria os ensinamentos de minha mãe. Faria
uso de meu kit anti-stress, sempre comigo, em farta bagagem permanente. Kit
anti-stress, traduza-se, compõe-se de coisas para te entreter em qualquer
espera imprevista. Leria jornal do dia, leria Hobsbawn e ouviria música, jazz,
ilustrando palavras e histórias de rica literatura.
Mas um forte aperto que tinha no coração e nas ideias, por
razões existenciais, não me deixou concentrar ou entender palavra nenhuma. Ia
lendo e as palavras não construíam história em minha (falta de) lógica. Nem
Hobsbawn, nem os jornais, nada fazia sentido.
Permaneci, assim, só na música. Sem a companhia de palavras
que me trouxessem outras vidas e outras histórias, me desvinculando de minhas
sem-razões para tudo (e nada). Fiquei com a música, com a cervejinha e com o lanche
Agreste da Pompéia, que gosto tanto.
Só me levantei na hora do show para descobrir que o show,
Acabou Chorare, com Moraes Moreira e seu filho, Davi Moraes, do qual contei
tanta vantagem a semana inteira, não era ali. Era no SESC Pinheiros a uma
distância de algo como hora. Estava no
SESC errado, a uma distância inalcançável com os tempos do show.
Acho que a exposição da Marina Abramovic, tão presente em
meus projetos de roteiro cultural, junto à notícia do tombamento do SESC
Pompéia, como patrimônio cultural nacional esta semana, me levaram para lá. Fui
e não me encontrei, em nada.
Mas virginiana extrema, não podia admitir voltar para casa,
um sábado, importante frisar, sem nada. Não havia estudado, não havia lido, não
consegui ver exposição e perdi o show. Fui, assim, até a bilheteria para saber
dos shows que aconteceriam ali, aquela noite e se ainda havia ingressos. Pois, era
a Mostra Prata da Casa 2014, ou seja, um micro festival anual dos melhores
nomes que sem apresentam nos shows de mesmo nome, ali, às terças. Só nomes
novos despontando Brasil afora, como que uma pré aposta do SESC. Como muitos
dos nomes que compõem a cena musical de São Paulo e do Brasil hoje, vi surgindo
ali, no Prata da Casa, como já fui frequentadora de carteirinha, resolvi ver. E
como são, geralmente, bandas ou nomes desconhecidos, ainda havia ingressos.
E fui... de olhos fechados. Porque se abrisse e lesse o
programa da Mostra Prata da Casa 2014, em minhas mãos, não iria. O show eram
dois grupos; Mexidinho e Rapadura (!). Sei que parece que entrei para os
trilhos de fazer piada comigo mesma, mas é sério. E este foi o saldo de um dia,
assim, todo azedo: ‘Mexidinho’ com ‘Rapadura’.
Mexidinho é do Recife, algo voltado para o samba, com uma
sonoridade algo blue. Dá para imaginar? Sei que não. Mas foi ‘gostosim’... Rapadura Xique Chico é o codinome de Francisco Igor Almeida
dos Santos que toca alguma mescla de repente, embolada e Luís Gonzaga com rap.
É, enfim, uma puta embolada? Sentiu? Eu senti e por isto fui embora ao
princípio do show. O Mexidinho era algo gostoso e embalou a escrita destas
palavras noite afora, sentadinha nas mesas do espaço de convivência, ouvindo o
show. Mas rapadura não é mole não. Esta, nem doce era.
domingo, 1 de março de 2015
mineiridade temperada no afeto
Tivemos, dias desses, pelas bandas da Rodésia, uma noite
mineira como despedida de uma flatmate especial. Uma despedida mineira como sou,
para plantar nela um gostinho e vontade de volta. Uma noite mineira na
comida, na bebida, na música e na prosa para uma flatmate, feita amiga, sueca.
Assim, nesta noite, Belo Horizonte e Nova Era encontraram Malmo em um atlas
particular e afetivo.
Começamos nossa noite desenhando alguns contornos da mineiridade
para ‘nossa’ sueca.
Iniciando pela espinha dorsal do ser mineiro, introduzimos
toda prosa e todo causo com o afeto, tempero mandatório na cozinha e nas
relações, ingrediente de todo prato da cozinha e atitudes do entorno relacional
e afetivo, portanto... ( aí... viu?). E a bem querência é o resultado de
cozinha assim, com uma vontade de doçura sem fim.
Buteco é uma quase instituição do entorno mineiro, porque
mineiro que se preza é butequeiro. Para resolver algum algo, para encontrar
amigos, para um pré qualquer coisa, para um pós todo o resto ou mesmo para a
coisa em si: butecar por butecar, eis a questão. Com uma cerveja ( a inteira, nada
de long neck) servida em copo lagoinha, porque butequeiro filho legítimo só
toma cerveja aí. Uma boa taça está para
o vinho assim como o copo lagoinha está para a cerveja.
E aí habita uma carência de São Paulo. Aqui tem o mundo, eu
sei, mas quaaaaase nunca, em lugar nenhum, tem buteco. Tem bares, para todo
gênero, toda cor, todo gosto e todo credo. Mas ora estilosos demais para butecos,
ora pé de chinelo e copo sujo demais para tanto.
Buteco tem também um tom afetivo, senão não é. É aquele bar
do ladim de casa ou da faculdade ou do trabalho que para convidar alguém para
algo, gasta uma puta contextualização.
Para além destas nuances do espaço geográfico, temos
particularidades mais profundas, quase idiomáticas. As contrações de palavras ou frases inteiras,
carregando aqui também, um plus a mais do afeto, formam quase um dialeto. E é nato.
Nascemos falando assim. Quando aprendemos a nos expressar (mais do que falar)
não é ‘pode deixar’, por exemplo, que dizemos ou que assimilamos. É podexá. E podexá que assim a gente se entende
e se vira bem. Se pensar bem, racionalmente, não aplicar soa a desperdício. Uma palavra
terminando em ‘de’, seguida de outra começando em ‘de’, soma-se tudo e se acabô.
Nosso senso de praticidade e familiaridade na fala, nos
guia, podexá!
Por esta mesma lei , segue inteiro universo vocabular:
oncetá, onkovô, onquotô, cadivó, ladilá e por aí vai. E continuando por esta mesma trilha de nossos ‘descaminhos’
linguísticos temos, ainda fortes, os diminutivos reduzidos, assim, redundantes.
Além de diminutos no significado, o são na forma porque a regra aqui corta a
palavra (once again). Poquim, bunitim, novim, cafezim, suquim, pertim. E os
diminutivos carregam um significado que vai além de sua definição. Pertim é
deveras perto porque funciona como um superlativo. Não há nada mais perto que
pertim. E o diminutivo mineiro segue também pela linha do afeto.
Pertim é gostoso de ir. “Vai boba, que é bem pertim”. Você vai andando com
prazer porque é logo ali na esquina, pertim todavida.
E pronto, outra instituição mineira, a esquina. Tudo
acontece na esquina e tudo fica logo ali na esquina. Não se localiza nada sem
definir esquina de que com quê. E aí o mineiro se deixa filosofar, ainda que geograficamente: um ponto não
é sozinho, ele só é em relação a outro.
A cadivó (junto com a cadivô) é outra instituição carregada
de afeto e significados pessoais. A minha cadivó não carrega os mesmo
significados que a sua, nem de ninguém. Ela pode ter todos os significados
particulares e contornos bem diferentes. A minha cadivó pode sigfinificar mais,
pode ter mais açúcar com afeto, pode ser mais parte do que sou, pode me
legendar ou só fazer parte da saudade.
Um poquim na cadivó, um cadim num buteco com os amigos, sempre no copo
lagoinha, em qualquer esquina de qualquer cidade, sempre queirosa de tudo tanto. Sempre perguntando proncovô? quecosô?onkotô? Em todo e qualquer canto, a mesma resposta: não importa, onde quer que eu vá, Minas me habita.
domingo, 22 de fevereiro de 2015
viola da memória
Memória afetiva é um ‘troço’ doido. A memória já é, por si, algo vasto como não podemos, nem sequer conseguimos imaginar. Cabe tudo, todas as vidas que quisermos viver, todos os amores, todas as viagens, todos os livros, filmes, referências, enfim; todas as tentativas de tudo, todos os passos de nossa longa estrada. Mas aquela de contornos afetivos tem um algo mais por falar alto no peito. Além das lembranças na cabeça, nas sinapses e outros caminhos neurológicos, estas pulsam no peito e trazem referências outras, misturando sentidos, sentimentos e cognições, como que contextualizando o fato.
Deixando meus devaneios e partindo para o fato, fui há alguns dias, alguns meses, na verdade, a um show que não esperava ter entre as opções de vida São Paulo tudo sempre tanto. Não que não caiba na amplitude do mercado da terra da garoa (hoje da estiagem). Cabe tudo aqui. É que este moço estava tão distante na mencionada memória afetiva que nem nunca figurou entre as possibilidades.
O moço era o violeiro Almir Sater. Em show no SESC Pompéia, o violeiro, compositor, cantor e instrumentista, que conheci enquanto ator. Foi um ‘Pantanal’ que me levou até ele. E dali, de telas e novelas, transferi a referência para o lado musical que desde sempre me moveu. Comecei a ouvi-lo em notas e canções e significados pantaneiros.
Foi um show intimista ao extremo porque não era um artista no palco. Era um músico. E ponto. Sua postura no palco não diminuía sua arte e nos aproximava, o público. Li, muito antes e depois do show, que ele foi um dos responsáveis pela valoração da viola de 10 cordas, trazendo um toque
mais sofisticado ao instrumento. Uma música caipira pantaneira, refletindo traços populares e eruditos.
mais sofisticado ao instrumento. Uma música caipira pantaneira, refletindo traços populares e eruditos.
Acordes de viola soando deveras familiares e falando fundo dentro d’alma. Me transportei no tempo deixando a chalana me levar embalada pela memória afetiva. A menina noveleira que era e a música que desde cedo me contextualizava.
domingo, 8 de fevereiro de 2015
faxina de entorpecer o coração
Hoje fiz uma ‘ligeira’ faxina em minhas coisas, daquelas de dia 'interim' de prosa com ácaros e fungos. E foi tanta coisa falando alto em minha memória afetiva... Foram tantas as boas lembranças, que terminei a noite no Pedrão, com o testemunho e companhia de Ana Belatrix e Beto, lápis em punho, listando encontros saborosos da memória com fatos doces ou soberbos ou PUTA QUE O PARIU! E me resolvi a trazer alguns até aqui, tanto bem que me fizeram...
O número 1 da lista, made in Pedrão, é o convite de formatura do Gui, com aquele rosto de professor de inglês, aluno de jornalismo na PUC e tão Lost Cause...tão nosso!
O segundo é uma carta de amor do Gustavo em meu aniversário, falando de nossas afinidades e explicando nossa convergência. Chorei!
O terceiro foi a carteirinha do MEC, Minas Esporte Clube, in New Age, erguido pelo meu saudoso avô... vô Lourenço...
E aí veio meu crachá no curso de culinária Japonesa, uma carteirinha do DCE UFMG, um meu passe de um mês, no metrô de Londres, identificado e com foto.
O crachá de 'teacher'- Poli, at Wisdom.
Uma carta, longa e linda, de minha avó, quando estava trabalhando na Disney e não passaria, portanto, o Natal com a família.
Uma carta de Juruba, no mesmo período, falando que ficou sabendo que eu iria ao show ("QUE DO CARALHO!!!"), do B.B.King em Orlando! (CARTAS! Em papel, escritas à caneta, envelopadas, com endereço, selo e tudo!)
Uma sacolinha cheinha de Bindi, o terceiro olho indiano. Um dicionário e phrasebook de Hindi;
Umas boas dezenas de vouchers de passagens de trem (de segunda classe, importante, frizar) na Índia, mostrando o quanto me espichei por aquelas terras em meio a eles, aos Indianos, fazendo daquele país, a experiência que melhor me define! (porque quem andava de primeira classe na Índia, quando eu fui, eram só turistas - porque o preço era, ocidentalmente, MUITO baixo. Mas eu queria era conhecer a Índia, os indianos e seus hábitos, não o mundo de estrangeiros, mainly europeans... se para nós, brasileiros, era barato, para eles, era cisco!)
Uma outra sacolinha cheinha de cartinhas de despedida quando estava vindo embora da Índia, de todos os amigos indianos ou de todo canto que conheci morando lá ou que morava lá comigo.
Uma bandeirinha da Jordânia, que ganhei de meus melhores amigos na Índia, em minha despedida. Ganhei do Fayeq, Atalalh e Hasan, jordanianos com quem fumava Narguilê tomando chai toda noite.
Uma cartinha de natal da filial do Banco do Brasil em Tokyo, onde fui quando estava lá, a trabalho.
Canhotos de shows em BH. YES, Creedence, Marisa Monte, Chico Buarque... e Arnaldo Antunes, claro!!!
CHOREI muito. Por ter vivido tudo isto e por lembrar de tudo.
O número 1 da lista, made in Pedrão, é o convite de formatura do Gui, com aquele rosto de professor de inglês, aluno de jornalismo na PUC e tão Lost Cause...tão nosso!
O segundo é uma carta de amor do Gustavo em meu aniversário, falando de nossas afinidades e explicando nossa convergência. Chorei!
O terceiro foi a carteirinha do MEC, Minas Esporte Clube, in New Age, erguido pelo meu saudoso avô... vô Lourenço...
E aí veio meu crachá no curso de culinária Japonesa, uma carteirinha do DCE UFMG, um meu passe de um mês, no metrô de Londres, identificado e com foto.
O crachá de 'teacher'- Poli, at Wisdom.
Uma carta, longa e linda, de minha avó, quando estava trabalhando na Disney e não passaria, portanto, o Natal com a família.
Uma carta de Juruba, no mesmo período, falando que ficou sabendo que eu iria ao show ("QUE DO CARALHO!!!"), do B.B.King em Orlando! (CARTAS! Em papel, escritas à caneta, envelopadas, com endereço, selo e tudo!)
Uma sacolinha cheinha de Bindi, o terceiro olho indiano. Um dicionário e phrasebook de Hindi;
Umas boas dezenas de vouchers de passagens de trem (de segunda classe, importante, frizar) na Índia, mostrando o quanto me espichei por aquelas terras em meio a eles, aos Indianos, fazendo daquele país, a experiência que melhor me define! (porque quem andava de primeira classe na Índia, quando eu fui, eram só turistas - porque o preço era, ocidentalmente, MUITO baixo. Mas eu queria era conhecer a Índia, os indianos e seus hábitos, não o mundo de estrangeiros, mainly europeans... se para nós, brasileiros, era barato, para eles, era cisco!)
Uma outra sacolinha cheinha de cartinhas de despedida quando estava vindo embora da Índia, de todos os amigos indianos ou de todo canto que conheci morando lá ou que morava lá comigo.
Uma bandeirinha da Jordânia, que ganhei de meus melhores amigos na Índia, em minha despedida. Ganhei do Fayeq, Atalalh e Hasan, jordanianos com quem fumava Narguilê tomando chai toda noite.
Uma cartinha de natal da filial do Banco do Brasil em Tokyo, onde fui quando estava lá, a trabalho.
Canhotos de shows em BH. YES, Creedence, Marisa Monte, Chico Buarque... e Arnaldo Antunes, claro!!!
CHOREI muito. Por ter vivido tudo isto e por lembrar de tudo.
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