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domingo, 13 de setembro de 2020

SENTIDOS QUE ME MOVEM

 Como nos sentidos e significados, na  prática, vou me aprendendo budista



Isto não vai ser um texto inteiro, com todas as letras. Será, sim, um excerto, com sua inteireza pontual. Sem qualquer pretensão de esgotar um assunto, uma emoção, uma ocorrência, quero lhes contar de outros resgates meus; estes agora, sensoriais.

Já andei comentando pelas páginas da Louca, e até por outros espaços digitais, do momento  intenso de resgates, da memória, que venho vivendo. É tudo tanto que sequer consigo explicar para dar uma  noção da intensidade dos meus dias, vivendo presente e vários fragmentos do passado, tudo ao mesmo tempo agora, junto e misturado!

Haja coração para lembrar, de uma vez, de 15 anos de amizades, amores, lugares, temperos, pratos, cozinhas, trabalhos, países, lugares, pessoas, shows, cantores, bandas, arte, affff, cansei, lembrei, chorei! Muito!

Os resgates da memória vieram junto àqueles da emoção, como já contei também por aqui. Tô chorando à beça e tá gostoso sentir as lágrimas correndo com apertos maiores ou menores no  peito... ou flores na boca! Venho repetindo desde sempre que não vou mudar ... eu sou é eu mesma e é muito gostoso resgatar um pedaço tão forte do eu mesma (ou do self, como queira, Jung!)!

Desta feita (!), os resgates que me movem, me assustam, mas deslumbram, são os resgates sensoriais. Meus sentidos foram todos afetados pelo trauma, cada qual à sua maneira.

No início não caminhava e hoje manco (eu não sei, mas é o que dizem). O lado direito do meu corpo ainda não tem a mesma coordenação ou sensibilidade. Apertavam uma minha mão e às vezes tinha a impressão de estarem apertando a outra. E ainda não sinto o toque de um lado da mesma forma que do outro (tato), mas já melhorou 90%, digamos. Fruto, creio, da hemiplegia que tive (paralização da metade do corpo – metade direita).  Tô nos últimos passos desta estrada e ela não vai dar em nada, ya lo sé!final deste caminho!

Também não ouvia bem de uma lado. Adivinha? O direito... mas hoje escuto o dobro dos dois lados... cuidado  comigo! ;-)

Não sentia cheiro de nada e pior, quando sentia não distinguia. Imagina: manjericão = cebolinha = gengibre. Perfume francês = boticário = colônia. Incêndio = gasolina = álcool.

No paladar, tinha uma variável diferente. Sempre senti o sabor de tudo MUITO BEM. Mas não distinguia nada, nunca. Minha teoria é que a conexão dos terminais do paladar e do cérebro se desfizeram. Assim, eu sentia e ‘identificava’ um sabor. “hummm, que delícia. Este sabor eu conheço muito. Já comi demais.” E afirmava: “gengibre”. “Não, manjericão”. Deu para entender o nível?

Parêntese necessário: imagina a dificuldade para uma pessoa que gosta tanto de cozinha, feito eu. Não distinguir aromas. Distinguir sabores, mas não saber, sem provar E LER O NOME, o que é o que! Tenho que ir provando e fazendo, TUDO. 

Na visão, durante muito tempo enxergava duplicado. Culpa do olho direito. Acredito (teoria minha) que em função da hemiplegia do lado direito. Mas isto passou há uns 4 ou 5 anos, não sei precisar.

Pois é, tato, visão e audição já tinham melhorado. Agora foram paladar e olfato, no mesmo dia, em momentos diferentes.

Almoçando uma tilápia toda cheia de condimentos, com pimentão vermelho e amarelo, cebola roxa, gengibre e pimenta do reino, distingui a pimenta do reino moída na hora, pela maneira que a senti intensa no prato. É uma diferença muito sutil para um paladar desconectado feito o meu, que sentia, mas não distinguia, NUNCA. Percebi, perguntei e confirmei. (como o seu uso não é hábito em casa, não a  moída na hora, minha percepção foi deveras autêntica). Senti o sabor e dei nome aos bois! Putzgrila!

Voltando para o quarto depois do almoço senti um cheiro de limpeza gigante. Um cheiro que não nada há 12 anos. Perguntei Fatinha e ela me contou que usou um produto de limpeza xyz, que ela  já tinha usado trocentas outras vezes pela casa  toda, incluindo meu quarto. Mas eu nunca senti nada nenhuma vez e ali senti, INSTANTANEAMENTE. Foi só pisar no quarto. Né pouco não, tá?!

Olfato e paladar, no mesmo dia,  de uma vez. Deixa eu contar para vocês. Tô virando budista! Aprendendo valores em uma escala toda diferente de tudo que aprendemos desde sempre.  Ando conseguindo olhar através das coisas e enxergar significados. Significados perdidos, ausência sentida e confirmada, significados reencontrados ou mais forte, reconstruídos. Poliana que sou, isto tem me feito muito bem.

E é tão gostoso aprender na pele, nas vísceras, os múltiplos sentidos da vida. E pouco a pouco, resgatá-los. Sai do corpo, de sua mecânica, passa pelos sentidos e sua orquestração conjunta e atinge os afetos e sentimentos porque são onde pousam nossos sentidos plenos e insaciáveis.

Hoje, me sinto inteira e sinto, muitas vezes, os sentidos sincrônicos, em uma sinestesia muito completa. Uma música tem sabor e aroma. A comida dança  em meu paladar, embalando a música que aquela memória também resgata. Tem som que toca a gente, revira o estômago e o coração. Eu ando de cara para as lembranças e os sentidos e os sinto todos junto a mim, todo o tempo.

Não mexe comigo, que eu não ando só!

(isto era para ser um excerto mas 37 minutos depois, olha o tamanho do texto que saiu – é o tanto que isto tudo tá me fazendo bem!)

 


terça-feira, 1 de setembro de 2020

Resgates em ebulição


O processo intenso de resgates hoje, 12 anos depois de tudo  tanto, me faz perguntar sempre quantas vidas eu vivi

Algumas coisas têm uma linha do tempo muito particular.  Com idas, vindas, estagnação, retrocesso, movimento retilíneo uniforme (quem lembra das aulas de física? ;-), picos, aceleração e outros modos, para os quais eu não tenho vocabulário.

Meu processo de recuperação teve e tem (ainda, 12 anos depois de tudo!) curvas muito alongadas, mas sempre do lado positivo. O que eu vou conseguindo, como vou conseguindo, os detalhes de minha superação, que eu, virginianamente contabilizo, são muito motivadores, apesar do tempo.

Mas bota meu nome aí nesta equação. Apesar de serem 12 anos, ser poliana (a minúscula, o significado) faz absoluta diferença para nesta equação só constarem parcelas (termo de uma soma) ou algumas vezes até multiplicadores, mas nunca subtraendos ou divisores.

O que venho lhes contar aqui é isto. Hoje (mas hoje, presente contínuo) experimento uma etapa multiplicadora, exponencial talvez, não sei dimensionar. E virginiana conteudista nas horas uteis e inúteis já tenho teorias orquestradas para explicar esta avalanche de significados que me invade... e entorpece, muitas vezes.

A primeira e certeira (porque não há dúvidas, neste campo) é a leitura. Há uns 4 ou 5 meses, voltei a ler livros, com fluência. 12 ANOS DEPOIS! Sim, eu já li alguns neste tempo todo, mas sem cadência e sempre anotando o que ia lendo, em uma espécie de resumo cola, para a próxima vez que pegasse no livro, no dia seguinte, saber em que universo eu estava passeando.

Lia 1 ou 2 livros por ano, em média, porque me era um exercício desgastante. Fora isto, vivia de jornal, links, notícias, às vezes contos. Assim, voltei a ler, no cotidiano, há uns 4 meses e já estou no 4º livro. E pirando. Minhas conexões e lembranças estão mais ágeis e eu não tomo notas em resumos ou paro na página 57 perguntando quem são estes, porque eles estão agindo assim, porque aconteceu aquilo. Sim, às vezes me perco, mas conectando sinapse a sinapse, alcanço o fio da meada. É um puta prazer reconquistado 12 anos depois de tudo, então, tem um valor muito pleno.

A segunda teoria é coisa minha. Com o traumatismo em grau grave (!) perdi a capacidade de me emocionar com qualquer coisa, como sempre fui EU (mesma!). No início, não me emocionava com nada, cinema, literatura, realidade, arte. Constatava, racionalmente, que, sim, aquilo era emocionante. E ponto. Nem uma lágrima, nem um lamento ou suspiro.

Há uns três anos, voltei a chorar. Feliz da vida, com esta resgate, às vezes forçava a barra. Mas não era fácil. Chorava em algumas ocasiões especiais. Meu algoritmo aqui ficou super seletivo e eu não me identificava ou enquadrava em nada.  Pouca gente, alguns fatos particulares, raríssimos pedaços de filmes ou livros (talvez porque não lia!).  Mas já estava aceitando este fato, sem drama (até porque não conseguiria chorar, não por esta razão!).

Há alguns poucos meses voltei a chorar com tudo, para tudo. Cinema, literatura, música, beleza, pessoas, notícia, ações, reações, realidade, lembranças (!!! aqui é celebração dupla, pela memória, em si e pelo choro com ela!) palavras, descobertas, meu filho.

E a minha teoria é que a emoção tem papel forte na cognição. Penso que há fatos que vou lembrar para sempre por causa da emoção neles embutida. Mas como eu estava sem emoção, não lembrava porque não sentia.

Sabe a tão falada hoje, memória afetiva? Pois, a minha estava desligada e agora é um torpor muito lindo e intenso. Lembrando coisas tão significativas que ficaram em off por 12 anos. Está tudo em meu estômago, flores revolvendo, tão visceralmente que é impossível descrever. Tudo tanto, suas músicas e palavras. É tanto resgate de uma vez que respirar fundo é meu modus natural.

Algumas coisas, quero trazer de volta ao meu presente, algumas estão bem na configuração de lembranças e outras ainda, quero fazer futuro.

Trago outras vidas comigo e mais que nunca vou cumprindo meu epíteto que Poli são várias!

domingo, 19 de julho de 2020

ON THE ROAD IN INDIA - GOA EXPRESS

Acordei às 4:00 AM no trem, preocupada... Não sabia o horário exato de nossa estação.

Me informei com as mulheres da cabine. Seria a próxima. Descemos em DADAR, tomamos o trem local e fomos dali a VT - Vitória Station. Esperamos deitadas no saguão por hora e meia or so nosso trem para GOA.

Ali conhecemos um inglês que está viajando a Índia de bike, mas está com medo da guerra e vai deixar o país..


Embarcamos no GOA EXPRESS às 7:20. Dormimos bastante e estudamos nossas possibilidades no LONELY PLANET, o que fazer em GOA. Bem, first of all, qualquer que seja o tour programado, straight to PALOLEM BEACH, mais que recomendada por todos que já navegaram por estas bandas!

Não encontrando fotos do GOA Express, peguei na web, mas depois achei. Adivinha qual é!? ;-)

Chegamos à estação de Madgaon a Canacon e depois seria rickshaw até PALOLEM.
Como o ônibus estava muito cheio, fomos, as duas, na frente com o motorista. Exclusividade! Lindas paisagens no caminho. Realmente o verde do sul escarnece da secura do norte. Que contraste!

E aí... ... o ônibus PIFOU, óbvio! Estávamos nós, no meio da estrada! Arranjaram-nos uma carona que na verdade era um táxi e queria uma fortuna: 150.0 Rúpias. Alguns minutos e muita barganha depois reduzimos para 70 Rs, ainda com um gosto de que fomos enganadas.

Procuramos o hotel que o Martin, trainee alemão conosco em Baroda, nos indicou: Flavia's Paradise. Decidimos ficar. Quartos bem simples, banheiro coletivo, mas tudo limpo.

Antes de tudo, sentamos no sapé de frente ao hotel que funciona como restaurantes e... beer, please!

Estávamos ABSOLUTAMENTE cansadas, pregando. A cerveja desceu feito ÁGUA.

Conhecemos o BASIL, um suíço recém chegado à Ìndia, vindo do Paquistão, escrevendo uma carta.

Perguntou-nos se tínhamos o endereço do céu. O amigo para quem havia escrito a a carta, tinha falecido.

Eu, Eunice e Basil em outra ocasião - jogo do Brasil copa 2020


Foi assim que o conhecemos.

Convidamos para jantar conosco. No caminho caiu uma CHUVASCA (monções!). Sentamos em um barzinho simples e aconchegante com pequenos lampeões em cada mesa. Pedimos peixe, cerveja e conversamos. Basil tem viajado o mundo sem rumo. Parece um cara interessante. Eu e Eunice, pregadas, voltamos ao hotel à meia noite!

(até aqui, nada de fotos bonitas ou diferentes, só o início do caminho. No próximo passo da estrada começamos a ver coisas legais!foge não que eu prometo melhorar!)

quinta-feira, 9 de julho de 2020

ON THE ROAD - INDIA


07/06/2002



Enfim, viajando pela Índia. Esperei muito por isto. Eu e Eunice já contávamos os minutos.

Encontrei os amigos para um bye bye. Os trainees, Sajid, Atalah e Fayek. Dhruv veio me ver em casa, antes de sair.

Fomos para a estação,  VADODARA Railway Station, eu e Eunice. Nos últimos minutos, Atalah e Fayek apareceram. Como eu esperava! Eles não me deixariam partir sem um abraço!

Nosso trem saiu às 10:50 para Bombaim, estação Dadar.

Tudo nos conformes.

Seja o que deus quiser! Boa viagem!


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Eunice era uma trainee holandesa com quem dividia a casa em Baroda. (Éramos 6 trainees por casa, cada um de um país)

VADODARA é o nome da cidade que morei que também atende pelo nome de Baroda

Os amigos que foram se despedir de nós era uma turma de jordanianos de quem ficamos muito próximas!

Cenas dos próximos capítulos: a cada estação, trago um, com fotos, que prometo procurar malas afora!




sábado, 4 de julho de 2020

A LIBERDADE DE CADA UM

A Liberdade protagonista
Sempre que chego ela já está ali, sempre um grupinho ao seu redor ou sempre em outro grupo ao redor de alguém. A senhora do cachorro vestido parece ser algum personagem importante da cidade, alguma ilustríssima dama que eu, distante de tais ilustrações, ignore.

Ou então, é tão somente uma senhora desinibida e simpática, dedicando suas manhãs aos também ilustres, porém desconhecidos, que por ali passam e por ali se deixam ficar.

Sempre que chego, ela já está ali e sempre que saio, ela permanece. Pouco importa se chego 9, 10 ou 11 e saio 10, 11 ou 12. A senhora do cachorro vestido passeia seu cachorro vestido por horas a fio, religiosamente, todos os dias, sempre indefectível com a gola da camisa polo aparecendo por cima da blusa de lã xadrez. Xadrez como a roupa do cachorro vestido . Óculos escuros. Nela, não no cachorro.

De banco em banco da praça, senta-se com alguns, caminha com outros. Responde a todas as pesquisas de opinião que rondam a Liberdade (a praça!). E ela se deixa ficar. Até quando eu não sei. Um dia ainda fico para ver seu final, ou melhor, seu destino.

Quem sabe a sigo por detrás das árvores, depois dos carros, a descobrir quem é esta senhora e por que diabos passeia ser cachorro VESTIDO, TODAS as manhãs, a manhã toda.

Aposentadoria seria uma resposta pouca, vazia, insuficiente. Ademais, a senhora não me parece idosa. Me parece, antes, assim, em termos pouco graciosos, coroa.

Aposentadoria, solidão, loucura. Para quê mesmo eu quereria uma razão? Feliz a senhora do cachorro vestido se tem as dela ou se delas não precisa.

Razões suficientes, parece, as tem o senhor meu vizinho de fugir de meus olhares e meus passos intermináveis around the square. Razões que compreendo.

Eu que o encontrava, o senhor meu vizinho, no elevador do edifício Sobrado, subindo ou descendo correndo com seu terno e sua pasta de couro preta.  Ele que corria entre 'bons dias' e 'boas noites', queda-se sentado em um banco, escondido por trás de uma estátua.

Me evita. Nenhum bom dia. Eu passo olhando para o outro lado, para o Palácio do Governo, solidária a sua frustração de se descobrir, de repente, desnecessário dentro de casa, afastado da dignidade de seu terno, sua pasta preta de couro, sua pressa e seu estresse.

Sua mulher decerto move céus e terra, quer dizer, mesas e cadeiras, panelas e frigideiras, por toda a manhã! E nesta turbulência matinal, a presença do marido rondando, tornou-se um estorvo.

Ele que, há décadas, só chegava à hora do almoço, para sair hora e meia depois, fica agora sapateando o chão  encerado, farejando as panelas, rondando.

Até tenta ler seu jornal no quarto, na varanda, calado e quieto, quase invisível. Quem dera. Lá vem a mulher de vassoura, rodo, pano de chão, todo o arsenal. - Levanta o pé, tira o sapato, não pisa aí, dá licença um minuto!

Refugiou-se na praça. Acreditou-se confortado por um possível anonimato, buscando em seu conforto, a fuga das justificativas, que ninguém pediu. Decerto pergunta-se: para que, afinal?

Quisera eu não causar-lhe o tormento de procurar o anônimo sossego em outros sítios!


domingo, 14 de junho de 2020

DOS PAUS PARA A CANOA

De como o lado prático dos MEIOS desmancham a poesia de qualquer FIM!

texto de 2000 encontrado perdido (!)


Fiquei muito tempo pensando se iria direto ao ponto, postando somente  um meu texto antigo que achei perdido em casa ou se faria legendas, contextualizações, etc e tals para aquele texto encontrado e identificado!

É que achei aqui em casa, em Nova Era, entre as minhas intermináveis caixas de mudança vindas de SP (há quase 5 anos!) uma especial, cheia quase totalmente de diários pós acidente. Diários do tipo agenda/HD externo, uma vez que me faltava a capacidade de processar lembranças, de qualquer peso, importância ou distância no tempo.

Bom, folheando os cerca de 30 caderninhos, para separar os que quero guardar, encontrei um anterior ao acidente, anterior a SP e que, folheando, vi datas de 2000, 2001 e 2003. Entre material de aulas de espanhol, de francês, de teoria e prática cambial, apontamentos sobre umas 10 faculdades e universidades na Espanha (será que eu queria uma pós ou mestrado lá?) e alguns poemas (não sabia que eu escrevia poemas, mas me reconheci neles), encontrei um texto que me identifiquei na primeira leitura. Não me lembrei de nada, mas sou eu!  E quero trazê-lo aqui.

Até agora, então, era contextualização, somente aqui começamos a indagação DOS PAUS PARA A CANOA! Então, vamos lá:

Cansa-me o lado prático das coisas. Decido-me: vou fazer isto. Antes, quero fazer isto. Sim, porque antes mesmo que eu termine a sentença, uma palavrinha inútil se interpõe entre mim e meu projeto: como?

E aí gasto eu horas, meses (anos, sabe-se lá!) a devanear sobre os meios e recursos necessários. E lá se vai minha convicção, passadas as horas, os meses, sem que eu tenha respondido à palavrinha enxerida e arrogante.

Cansa-me pensar no meio de locomoção quando só quero chegar. Pensar no dinheiro, quando só quero ter.  Deus, como me cansa pensar com quantos paus se faz uma canoa.

Dormindo somos mais eficientes. Sonhando, querendo, temos! Não há meios, recursos ou dificuldades que se interponham ou nos impeçam do que seja.  Se quero subir às nuvens, imediatamente estaciona uma nuvem a meus pés.

Mas todo o resto requer caminhos e (des)caminhos. Às vezes longos, difíceis e ainda assim incertos.

Talvez por isto minha inclinação por SONHAR!

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

AlzheimerAmor

Partindo da memória 'cerebral' para a afetiva, Sandra Coelho constrói a história da mãe e propõe diálogo a personagens outros desta história.


Mãe e filha em permanente inversão de papéis.

Homenagem à Neidinha e à ‘sem’ memória  de seu contexto e redor.  Perto do dia das Crianças, homenagem à menina que vem se tornando, com os (des)caminhos e desventuras do Alzheimer. Perto do dia dos Professores, homenagem à profissional que um dia a habitou e a trouxe, para benefício da cidade.

Sorriso - foto Sandra Coelho

Este embolado de frases tentando algum lirismo na dor e celebrando o mais que humano em nós, as mãos estendidas, é uma espécie de introito, introdução à exposição do ensaio fotográfico feito projeto de vida, trabalho e afeto, AlzheimerAmor, por Sandra Coelho, filha da Neidinha e hoje parente próxima do Alzheimer, portanto.

O lugar escolhido tem sua razão de ser na memória feita no coração, aquela afetiva. A Praça Sô Tufim, idealizada (e realizada) por Astolpho Araújo é uma mini Nova Era de anos passados. E é esta a razão de ser do local. Chegando ali, aquele passado próximo estava cheio de rostos familiares a mim, mas sobretudo a ela. Era gente do contexto afetivo/profissional de Neidinha, tentando, todos juntos, sob a regência de Sandra, resgatar afetos e sorrisos de um tempo que não volta, mas que se guarda entre nós, uma interseção emocional.

E partindo da entrada, livro de assinatura, cartazes e homenagens, adentramos a praça cheia, a mesma familiaridade e corredores de imagens feitas ternura.

Sandra convidou Moriá Benevides para o projeto que, antes mesmo da conclusão de suas razões, aceitou. Fotos resgatando memórias e afetos de uma portadora de Alzheimer. Aqui do outro lado da tela deste computador que vos escrevo, imagino que Moriá deve ter ficado aquiescido pela dimensão emocional do projeto, mas também e principalmente pelo desafio de produzir material carregado de significado, com estes contornos emocionais e as limitações impostas pela doença.

Todas as cuidadoras, em qualquer tempo, reunidas!

E no rico material ali exposto, podia-se perceber o fotógrafo captando olhares e afetos que, vindos de um portador de Alzheimer, ganham muito em significado. A impressão que fica em todos é que diante da desconexão dos neurônios e sinapses, firmam-se aquelas afetivas.

Mas a proposta de Sandra vai além das fotos e se reflete em dois convites atemporais.

O ‘Papo de quem Cuida’ é um grupo criado com e para o acolhimento de familiares e cuidadores e outras pessoas que tenham o intuito de ajudar, entender e/ou enfrentar os múltiplos desafios das várias fases do Alzheimer.

O ‘Rolê de quem Cuida’, por sua vez, traz roteiros culturais e turísticos, fundamentais para quem cuida, proporcionando momentos de descanso e leveza para quem está vinculado aos percalços da doença, através da Terraço Cultura e Turismo, da Sandra, filha e Turismóloga.

Casa cheia, o Amambaí derrama afeto na noite de abertura!

E aí, depois de tanta foto feita história, a gente entende aquela contextualização inteira. Lugares e pessoas aguardando a chegada da Neidinha, com a advertência de Sandra de que lugares muito cheios de pessoas costumam assustá-la ou irritá-la. Ela chega e seu olhar é parecido aos das fotos do Moriá, transmitindo serenidade e gratidão. Ela não se assustou, sorriu e, me parece, gostou. Recebeu pessoas no canto em que se sentou, vínculos de outrora unidos no agora.

E o sorriso de Neidinha não permite engano: ela gostou!


Uma doçura no olhar, revelando, como nas fotografias, Alzheimer e Amor!

Parabéns Sandra, parabéns Moriá.

Pela doçura expressa e pela proposta de conversa em torno de uma assunto feito intocável por nosso desajeito e inaptidão em lidar com o que nos dói e não compreendemos. Mas abrindo corações, Alzheimer Amor.

Fica aqui referência das páginas criadas como 'locus' deste projeto, para reunião de iniciativas, contatos, ações, vontades e afetos. Você encontra lá, AlzheimerAmor:
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