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domingo, 7 de fevereiro de 2021

CINEBIOGRAFIA DE GABO - INTERTEXTUALIDADE A TODO VAPOR


 

A memória permeou toda minha interação com a cinebiografia de Gabriel Garcia Marquez, meu Gabo desde há muito, com a intimidade definindo minha relação com o homem e sua obra. GABO – LA CREACIÓN de GABRIEL GARCIA MARQUES - todos os seus livros citados ou ali descritos revolveram lembranças e foi algo catártico, somehow, porque foram livros deveras significativos para mim, cada obra a seu tempo, no meu momento.

Apesar de ter começado meio do avesso, só que não, cada livro teve presença de fato nos meus dias. Comecei minha incursão por sua literatura com 100 ANOS DE SOLIDÃO, que me enveredou através da complexa genealogia dos Buendía, pelo realismo mágico e por muitas outras de suas obras. Do avesso, porque o tamanho e a dimensão da família guardam alguma complexidade para uma iniciante literária, junto a seu nascente estilo.

Me surpreendeu muito me lembrar de um trecho lido logo ao início, falando de um tempo em que ainda não havia palavras, sendo necessário apontar para designar.

Gostoso conhecer a origem da lendária MACONDO, que sempre teve um lugar especial em meu imaginário, guardando certa magia, origem do realismo fantástico em minha vida. Inspirado em Aracataca, vila diminuta nos Confins da Colômbia, onde passou sua infância, guarda as cores do estilo reverberado por ele.

Vida e obra do autor são descritas através de inúmeros depoimentos e trechos de uns 10 selecionados romances. Para compor GABO, personagem de si; outros personagens, agora de suas histórias, conversam ou narram intercaladamente, promovendo uma intertextualidade latina fantástica e saborosa. Para ele a literatura era algo que nunca podia estar apartado de suas relações e isto fica patente nos depoimentos.

Me causou particular (e surpreendente) boa impressão, os depoimentos de Clinton sobre o autor e sua obra. Depoimentos de largo portfólio de suas relações dão perfil largo ao protagonista porque visto de ângulos bem distintos.

O filme bem sucede em sua tentativa de entender a estranha história do menino nascido na pobreza em um vilarejo desconhecido dos confins da Colômbia e alçado a destaque inconteste da literatura mundial.

Entre suas idas e vindas da Colômbia, Europa, Nova York e México, em uma visita a  Aracataca, pela primeira vez, depois de deixar a cidade, teve a ciência da grandeza de sua história e valor de sua experiência. Nós também, GABO, através de sua literatura, os flashes de seus dias nos iluminam!

 

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

como um cineclube alcança a comunidade



Tudo nasceu de um sonho de uma moradora local, Poliana Darmane, que desde cedo ouvia de seu pai, muitas histórias de seu canto e casa, o Bairro Santa Maria em Nova Era. Ela foi, assim, crescendo e  alimentando uma vontade de documentá-las, transformando todos aqueles personagens de sua vida em parte de uma história compartilhada e celebrada!

Em sinergia identificada com projeto em andamento da equipe local do partido político Rede de Sustentabilidade, chamado Caminhos de Nova Era, consistindo no registro audiovisual de histórias da cidade, Poliana levou-lhes a ideia da produção de um doc sobre causos e formação do Bairro Santa Maria, origem e casa de seus afetos. E assim nasceu 'Santa Maria - Terra de Mangueiras'.

Com o apoio dos Coletivos Variável e KM per Hour, outros frutos de laços seus, acreditando  que a cidade reúne muita gente com sede de realização local e querendo, assim, aglutinar iniciativas e integrar projetos, decidiram, todos juntos e coletivizados, apoiar estas ideias para que saíssem de suas cabeças, rumando às ruas da cidade, aos espaços públicos e ao público local, enfim.

Uma das pernas coletivas desta bela iniciativa, a do Variável,  consistiu na priorização do trabalho de locais, naturais da cidade ou da região, para valorizar o trabalho de seus cidadãos e divulgá-los, personagens de si! Também  toda a produção e edição foram realizadas por eles. E tal rede de amigos ‘coletivizados’ a levou ao aparato e estrutura técnica audiovisual necessários, pois o roteiro, este, ela já o tinha desde o início pronto na cabeça, feito das muitas histórias ouvidas e das vivências pessoais.

Por fim e enfim, o Cineclube. Convidado a fazer parte da celebração, montando a estrutura de exibição do doc para os locais, protagonistas da obra, o Cineclube cumpriria seu papel principal, levando benefícios culturais à comunidade e aproximando-a da linguagem do cinema. 

Porque a festa era delas!
 Seria em uma festa comemorativa no dia das crianças em praça pública, em evento escolhido porque de tradicional celebração no bairro. O dia das crianças sempre teve força por suas fronteiras e é parte das histórias comuns daquela vizinhança. Santa Maria, assim,  iria se ver, se assistir e se saber, ‘Voltando a ser Criança’ (nome da festa)!

A comunidade foi,  assim, a alma e a essência do projeto! Os personagens ali retratados, na composição da história do bairro, deixaram, cada um, um pedaço de si mostrando o quanto nossos espaços e pedaços falam de nós, do que somos, do que fazemos, do que construímos e ensinamos.

À velha guarda de Santa Maria... antes
... e depois!

Santa Maria, independente de sua geografia, de seu surgimento, são eles, suas histórias e afetos. É a voz da comunidade o que justifica todo o trabalho realizado e ali transmitido!


A comunidade se assiste pelas telas do Cineclube!

E esta identidade foi o que se fez mais visível na exibição a céu aberto, em praça pública local, no dia das crianças. As alegrias, os risos  e exclamações; as palmas, comentários e histórias posteriores são os ingressos mais bem pagos que o Cineclube recebe, desde sempre.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

música de cinema


Era música e era cinema. Era Caymmi e era Henry Mancini. Era SESC e era eu.

Na exposição ‘Música e Cinema – O Casamento do Século?’, o SESC explora justamente esta relação reunindo conteúdos que bem dimensionam as particularidades e interseções  das duas linguagens.

E naquela noite, era o consagrado e virtuoso compositor, arranjador, violonista e cantor Dori Caymmi (!) apresentando seu álbum ‘Cinema, a Romantic Vision’ no SESC Pinheiros.

Dedicado a Henry Mancini, compositor de tradicionais trilhas sonoras para  TV e cinema, o trabalho apresentou arranjos meio bossa, meio jazz para temas clássicos como Pantera cor de Rosa, Cinema Paradiso, James Bond, entre outros.

Mas, para nosso deleite, o show se partiu em dois “ por que eu não tenho tanta trilha assim”, como ele mesmo nos revelou o protagonista da noite.  Assim, o primeiro foram o que o trouxe ao projeto ‘Música e cinema’,  as releituras de clássicas trihas.  O segundo foi o músico apresentando repertório bem delimitado por seu sobrenome, ou seja,  autoral e/ou familiar, em tom jazzy. Uma nossa identidade forte, mas menos carnaval, menos batuque; mais baixo, mais piano. Menos pandeiro, menos samba, mais bossa.

Mais apreciável porque mais melancolia escondida nas melodias. Aquarela do Brasil, feita mais triste e serena, em levada mais depressiva, como descrita por Dori 'himself', nos deu o tom exato da bossa daquela noite.

Muitas trilhas, muita bossa e muitos causos depois, Dori se despede deixando em nós um outro pedaço da identidade brasileira. 

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

magia em seu lugar

       Collin Firth e Emma Stone como Stanley e Sophie em 'Magia ao Luar'

Um mágico britânico com talento para desmascarar charlatões é contratado para investigar uma provável farsante, pretensa médium (o paradoxo estendido na areia!). Inicialmente completamente cético, ele, aos poucos, começa a se envolver pela moça e duvidar de suas certezas. Assim encontra-se por aí descrito e resumido o novo filme de Woody Allen, Magia ao Luar. Mas com a forte dose de ironia, acidez e humor peculiares do diretor, o filme é muito mais.

Pois, o argumento é este mesmo: Stanley é um brilhante mágico ilusionista que, na ‘vida real’, é um cético absolutamente convicto, E ele é confrontado em suas certezas  diante de Sophie, uma moça com explícitos poderes mediúnicos. Tentando desmascará-la e desvendar seus truques, ele tem convicções abaladas e, se questionando nelas, passa a enxergar a magia como algo necessário ao mundo, um alívio do contato com nossa dura realidade e assim,  nos dá mostras de que nem o mais racionalista dos seres está livre das sem razões da vida.

E é exatamente o ceticismo e o humor ácido que se destacam na trama, nos conduzindo em interessante embate entre o racionalismo puro e qualquer crença n’aquilo que há de misterioso ou inexplicável no mundo.

E aí vemos exposto um caminho alternativo entre a fé cega e a convicção cética daqueles que não creem em nada. Em  Allen, depois de extensa filmografia em que o racionalismo  figura sempre à espreita, se não  protagoniza, ‘Magia ao Luar’ faz concessões e equilibra-se com ironia e humor entre crença e descrença, verdade e trapaça e, a partir daí, sugere um terceiro caminho.

Ambientado nos anos vinte, a fotografia funciona como um verniz bem reproduzindo uma época e proporcionando, assim, um deleite visual.

A trilha sonora é protagonista, como de praxe na filmografia do diretor.  Canções clássicas da época dão o tom (e o ritmo) do filme, pela trilha se identifica a atmosfera.

Mas ‘Magia ao Luar’ cresce mesmo no humor. Collin Firth, no papel principal, o mágico ilusionista absolutamente descrente de tudo, é um altere ego de Allen, em seus questionamentos e seu humor ácido. É fácil identificá-lo na tela. Stanley , com dificuldade de lidar com tudo que não sabe explicar, espelha o diretor com um sarcasmo cheio de humor e exibindo seu ceticismo e arrogância, nos explica que não há 6º sentido, há 5 e há coincidências.

Em filme de contornos acidamente bem-humorados, somos conduzidos em passeios entre as razões e sem-razões do racionalismo puro ou alguma (qualquer) espiritualidade. E  com o fechar das cortinas, o mágico conclui, citando Nietsche, que precisamos nos alimentar de ilusão. 

domingo, 31 de agosto de 2014

arte no sangue


Confesso que a ideia de um filme de vampiros, ainda que do Jarmusch, a princípio, me causou terror. Mas, diante da filmografia do diretor e de seu histórico cá comigo, com meu gosto pessoal, me decidi a um embarque ‘de olhos fechados’. Mestre da reinvenção de gêneros, Jim  Jarmusch, aqui, desdenhando de nossos paradigmas e histórico de fantasias de terror nos reconstrói uma história  de vampiros,  com charme e requintes. Não é terror, não é comédia, n’alguma espécie de paródia, é uma história contemporânea, misturando referências.  Adam e Eve (a Criação, na linha dark ?) são vampiros estetas.  Seres que fazem contrabando do banco de sangue, para nutrir suas demandas físicas e se alimentam, de fato, de arte – música e literatura.

Eve (Tilda Swinton, em excelente papel) é uma leitora, ávida devoradora de livros, literalmente. Requintados  romances de diferentes épocas.  Adam  (Tom Hiddleston) é um músico apaixonado , colecionador de instrumentos raros e discos clássicos, com alguma participação em diferentes momentos importantes da história da música (dada sua vida eterna).

Em ‘Amantes Eternos’, filme de Jim Jarmusch,  o que menos importa é a estória, a narrativa. Importam mais a maneira de contá-la, os personagens envolvidos e sua construção, seus amores, humores e referências.  A trilha sonora, a estética sombria e decadente compõem a plástica deste filme incomum.

A música é mais que trilha, é personagem, parte da história porque são vampiros musicais estes ( e de, e que,  bom gosto!)

As requintadas e históricas referências culturais e artísticas destes seres imortais, em tom prosaico, dão uma perspectiva interessante, de quem viveu séculos, milênios buscando na arte um significado maior para suas vidas. Os outros mortais, chamados de zumbis, têm a existência vazia, ligada a razões mundanas, vivendo em função do trabalho e absolutamente incapazes de qualquer relação com a beleza.

Jarmusch dá charme, elegância e lentes contemporâneas a esta fábula secular. Li, em algum canto da rede que, para ele, há no mundo um número limitado de histórias a serem contadas. O que muda, sempre e muito, é a maneira de contá-la. E nisto, o diretor se revela protagonista em sua história no cinema, transgredindo gêneros, reinventando-nos como regra.

Falando fluentemente a língua da música, Detroit, com sua forte e inovadora cena,  protagoniza sombriamente a trama. Em crise financeira, suas paisagens desoladas compõem bem o quadro decadente de vampiros elegantemente deprimidos que nos colocam a questão se a arte pode sobreviver à crise econômica. Qual o espaço da fruição, fora do mercado?

O sangue é, por fim, alimento essencial que, trazido de bancos de sangue, provoca também prazer. Uma sensação de completude, imagino  (lembrando de meus tempos de vampira(!!!). Mas é aí que pontuo meu último de muitos elogios ao roteiro original: verossimilhança. A trama te envolve e te leva. E ponto.  


domingo, 30 de março de 2014

fantoches de si


O proclamado sentido da vida e a grande beleza, que o alimenta, já andaram dando pistas, os dois, que não são da ordem do exponencial.  O encanto e ‘esta tal felicidade’ seriam, no mais das vezes, algo budistas, se enredando mais pelo simples, natural e até quotidiano.

É a busca e a justificativa principal do protagonista em cena.  Jep Gambardella é o escritor de um único livro, sucesso extremo, de público e crítica. Rico, bem sucedido, irônico e ácido, Jep mergulha em desenfreado hedonismo no encalço de uma ‘grande beleza’, mote de um próximo e esperado best seller.

Estamos em Roma e os ricos, excêntricos,  companheiros de Jep em sua incansável busca de prazer, são impiedosamente retratados como cascas vazias se pretendendo, buscando sempre a autopromoção.  São como fantoches, fazendo vitrine de si, de suas aspirações e pretensões, tão vazias quanto suas vidas. Uma fauna sempre atenta ao seu desempenho em cada ato.

Flashes em muitas festas em boates, muita bebida, muito sexo e muito pó, purpurina e pirlimpimpim. Orgias, bacanais e um consumismo desenfreado.  Tudo muito e tudo sem motivo ou razão de ser.

O conceito de arte é central em “A Grande Beleza”. Às vezes hiperbólico ou ridículo e muitas outras cômico. A expressão artística como extração d’alguma beleza de um caos interior torna hilárias performances de alguns personagens. Acrobacias intelectuais em tentativas obstinadas de expressar inquietação, desaguando no ridículo.

Com o andar do roteiro, a falta de significados ganha destaque.  Pessoas ostensivamente mais interessadas em uma aparência de cultura e inteligência. Alguns pequenos e poucos cortes para belezas outras, de tom simples e leve, fazem  todos os excessos gritarem.

Em um filme de conteúdo forte, ácido, de fotografia marcante, Paolo Sorrentino nos brinda, a um só tempo, com inquietude e beleza. 

domingo, 23 de março de 2014

amor digital


Que extensão estamos dando, ou permitindo, à  esfera digital em nossas vidas, em nossa história?  É uma pergunta que o novo filme do diretor Spike Jonze, ‘Ela’,  deixa no ar. A despeito do argumento peculiar, a estória é verossímil  e nos parece possível, em um mundo em que aplicativos e redes sociais compõem nosso digital way of life.

O filme nos apresenta Theodore, (muito bem) vivido por Joaquin Phoenix, que trabalha em um site que oferece cartas manuscritas a outras pessoas; assim bem introduz o contexto do filme, o domínio de softwares e aplicativos em um mundo de dimensão cada dia mais digital.

Vivendo uma crise após a separação de sua esposa, Theodore  decide adquirir um aplicativo que promete proporcionar momentos reais de interação. O sistema operacional consciente (OS – de operational system), melhor dizendo, a consciência operacional, chama-se Samantha e, vivido por Scarlett Johansson, passa a acompanhá-lo diariamente, full time.  E eles se envolvem.

Samantha é um aplicativo com vontade própria, melhor,  programado para tal. E vivendo até mesmo crises existenciais, ela consegue não soar ficção científica em momento algum.  Merece parêntese a interpretação de Johansson.  Somente através da voz, ela convence Theodore  ( e nos carrega junto) de uma paixão absoluta e de uma vontade própria. Programada para ser perfeita cópia da consciência humana, a OS Samantha nos convence de seu amor.

Apesar  de bem colocar o debate sobre a digitalização em nossas vidas, melhor, DE nossas vidas, em todos os sentidos, no centro do trama, o filme destaca, sobretudo, nossa condição humana, ao fazer do amor, da paixão e muitas de suas nuances fatores condicionantes do argumento.

Tendo a tecnologia como fio condutor, a estória explora, de maneira original, as muitas particularidades de um relacionamento. Todas as dimensões, extrapolando a física, bem expostas e levantadas, engrossam a pergunta levantada por eles, a certa altura do filme: O que é uma relação real? Não se resume ao sentimento?

Não. Semanticamente, não se resume. Se amplia e se confirma no sentimento. E é o filme mesmo que se propõe a nos trazer e nos mostrar a força desta dimensão, explorando outras, adiante da física, ao sabor do pensamento e da imaginação, do sentimento, enfim.

No mundo aqui retratado por Jonze, temos dispositivos adaptados, adequados a toda e qualquer necessidade, via sedutores aplicativos.  No mundo de Jonze, e no nosso, estamos sempre conectados. Sozinhos ou em grupos, em casa ou na rua; permanentemente dentro de nossas self mídias. Desaprendendo, às vezes, a viver a vida como ela é, sem a ajuda do mundo digital, tão à nossa espreita.

Destaque para a direção de arte, tão identitária na filmografia de Jonze. Li, em algum canto, uma análise definindo a estética daquele mundo cibernético como ‘design Tok & Stok’. E enxerguei. E concordei.

Forte indicador do tempo que vivemos, a suposta ficção científica apresentada por Jonze nos parece absolutamente factível. 

domingo, 2 de fevereiro de 2014

arte em movimento


Começando pelo fim,  já nos créditos, li: Filme de Papel. E isto, de certa forma, ficou para mim como legenda, definindo aquilo tudo que tinha acabado de ver. Uma nota explicativa de ‘pé de filme’. Em função de seus traços simples e ingênuos, desenhos como os que, crianças, fazemos à mão, sem efeitos .

De estética minimalista e colorida, ‘O Menino e o Mundo’, de Alê Abreu, faz o caminho inverso das animações de hoje, grandes produções quase exclusivamente tecnológicas, presas dentro de seus efeitos.

Aqui, no mundo do menino, os traços são poucos e mínimos, carregados, no entanto, de uma expressividade surpreendente.  Além disto, o filme vai além de seu enredo, apresentando uma beleza plástica incomum, apesar e por causa de sua simplicidade. Mergulhada em metáforas, a estória  segue, enredo afora, derramando significados. Algo surreal, é arte em movimento. Mas ‘peraí’! Afinal, não é isto o cinema? ‘Motion Picture’!

A história, majoritariamente muda, pontuada aqui e ali por diálogos em um dialeto deste outro mundo, conta de uma criança pobre, cujo pai abandona a família para trabalhar em um lugar distante.

A ida do pai para a cidade confere mecanicidade a algumas cenas, onde até então predominava um bucolismo surreal.  A cidade e seus incontáveis vetores, a repetição gestual do trabalho, flashes de exploração econômica e degradação ambiental  pintam o mundo de cinza.

A família, a princípio, mora em uma fazenda onde planta para o consumo próprio em uma vida simples, cheia de carinho e música. O tom  aqui é lúdico e inocente. Onírico, em seu surrealismo.

Cenas de uma colheita de algodão pintam um quadro poético, dando contornos geométricos  à vida como  era no princípio. Simples assim. As cores e formas desenham uma poesia, melancólica, que seja , mas bela e original.

Digna de parêntese é a trilha sonora. Também nos créditos, li uma expressão que me foi definidora em relação àquela produção. ‘Instalação Sonora’. Aquilo era, perceptivelmente, experimentalismo puro em órbita. A trilha, composta por Gustavo Kurlat e Ruben Feffer, conta com a participação de Emicida, Naná Vasconcelos, Barbatuque e um GEM – Grupo Experimental de Músicos.  Em determinados momentos, nos sentíamos perdidos por veredas musicais nascida e criada em consonância com o dialeto do menino e seu mundo.

‘Plantando’ o pai em tudo o que vive, Cuca, o menino, nos dá a dimensão desta ausência como ‘A falta que ama’. O Menino e o mundo. E só!  

domingo, 19 de janeiro de 2014

disfunção erótica

A personagem Joe, jovem (Stacy Martin)

O sexo insaciavelmente performado e uma consequente mecanicidade do ato é um dos ângulos dados por Lars Von Trier à ninfomania, enquanto disfunção. Não há conquista, não há desejo, não há tesão. Todos os nossos paradigmas românticos cercando qualquer ato sexual, mesmo aqueles mais pervertidos, são desmontados.

‘Ninfomaníaca’,  Volume 1, é um bom filme, ainda que provocativo e indigesto, assinatura do diretor.  É um filme incompleto, no entanto, porque dividido em dois. É meio filme, de um corte supostamente censurado do original.

Dizem as ‘más línguas’ que, a certa altura, Lars deixou claro que seu filho (ops, seu filme) ultrapassaria as cinco horas de duração. Os produtores associados mundo afora  questionaram a possibilidade de colocar isto tudo tanto (no conteúdo  e na duração) em uma sessão regular. Colocaram, assim, duas condições:  dividir o material em duas partes, duas sessões, portanto; e retirar “o excesso de pornografia” existente na obra.

No filme, Joe (Charlotte Gainsbourg) é encontrada na rua, cheia de hematomas, desacordada e ferida, por Seligman. E ela começa a  contar a ele, exaustivamente, suas aventuras sexuais, sob o peso de uma grande culpa. Contando a seu interlocutor, eleito confidente e a nós, portanto, ela adverte: a história vai ser longa e com cunho moral.

Seligman nos  oferece aí um contraponto. Um  intelectual solitário, não a julga em momento algum. Apaixonado por pesca, traça paralelos entre as artimanhas para atrair peixes e as técnicas usadas por Joe para seduzir os machos que vai abatendo pelo caminho e segue, ao longo da trama, fazendo referências a Edgar Alan Poe, Thomas Mann, à bíblia, à matemática, à música clássica, diante do relato picante e melancólico de sua confidente. São pílulas de uma cultura erudita ao longo de trama ácida.

Joe nos dá detalhes de uma sua incansável busca de sentido. Do corpo, do desejo e da vida, por fim. Neste ponto, Uma Thurman, em participação carregada de ironia, nos dá possível chave. Para ela, a ninfomania é uma insensibilidade.

A personagem parece livrar-se de um mal, a virgindade. Esse e outros  episódios sexuais são narrados em flashback para Seligman, em uma dimensão indigesta do vício. Vemos  a Joe adulta contando suas desventuras, carregando uma culpa e vemos também a Joe jovem (Stacy Martin) e inconsequente no furor de sua insaciável busca.  Mas o que levou a Stacy a Charlotte é algo que só nos dirá o volume 2.

A genialidade de Trier nos vem nas entrelinhas. O humor afiado nos diálogos, apesar da trama amarga. Acompanhamos a vida sexual de Joe, da infância à velhice (somadas parte I e II, dizem), com direito a cenas de sexo reais e nudez frontal; algumas explícitas, incluindo-se cenas de penetração. Mas esta avalanche seria, apenas, um meio. A insaciável busca de Joe por sensações, por sentir algo, seja lá o que for.

Está todo mundo cheio de tesão para assistir ao pornô-cabeça do controverso diretor dinamarquês, mas Ninfomaníaca é a antítese da excitação erótica.

Ninfomaníaca – Volume 1 marca pela ousadia ao explorar um tema tabu, ao trazer análise emocional sobre algo que poderia facilmente ser banalizado, ao fazer graça e ironizar em momentos surpreendentes, ao causar absoluto desconforto nos telespectadores em suas poltronas. Mas, ao final, créditos subindo e fica em nós, além de algum mal estar, um questionamento: até que ponto a vontade de chocar não é um fim em si mesmo? Trata-se de um filme ambicioso que deixa uma expectativa enorme para o que vem a seguir mas absolutamente indigesto, por vezes.

domingo, 5 de janeiro de 2014

ética do afeto


Um filme terno, principalmente pelas interpretações das crianças, tão carregadas em uma naturalidade infantil e questionadora. Apesar da delicadeza da trama, a todo momento me pegava sorrindo para a tela. Keita, uma das crianças, já entra em cena conquistando com sua prosa infantil articulada.

O filme, Pais e Filhos, do diretor japonês Hirazaku Kore-eda,  trata de um caso de troca de bebês na maternidade que chega a conhecimento dos pais, dos dois lados, quando as crianças têm, já, seis anos. Com todas as questões emocionais envolvidas e a fragilidade da trama, o pano de fundo, o âmago da sociedade japonesa em sua rigidez moral e austeridade dá  fortes cores ao cenário.

O pai de Keita  exibe uma moral dominada pela ética do mundo do trabalho, centrada em eficiência. É  um workholic, capitalista e japonês, dois fortes agravantes. E  foca sua relação com o filho em uma espécie de treinamento, e assim, não se reconhece ou não se identifica nele, o acha pouco competitivo. A rigidez comportamental e moral da sociedade japonesa ficam ainda mais claras, por paradoxo, através da figura do outro pai, lúdico e brincalhão, fazendo o contraponto, em personagem que concentra características avessas ao estereótipo japonês.

O pai de Keita nos revela sua insatisfação e a ‘não identidade’ com o filho, quando da descoberta da troca dos bebês: “Agora tudo está explicado”, ele diz, nos fazendo cúmplices em seu inadequado papel, o pai de Keita.

Desfazer a troca é um caminho aconselhado pelos médicos. E o significado deste desfazer  nos coloca em forte dúvida do certo ou errado, neste caso. Uma vida inteira (mesmo que ainda curta) compartilhada. A questão que fica, eloquente, é o significado da paternidade e maternidade quando não um processo de vida comum, crescimento, afeto que nasce da convivência. Os limites e as fronteiras da força dos laços sanguíneos  versus  laços nascidos e criados na convivência.

Com diálogos tocantes e cenas reveladoras de um afeto construído e conquistado cotidianamente, o filme nos inquieta em seu questionamento. 

domingo, 8 de dezembro de 2013

adoravelmente desconcertante


“Ninguém é sério aos 17 anos”. A frase de Rimbaud parece, de alguma forma, querer se fazer legenda de ‘Jovem e Bela’, o recente filme de François Ozon. Ou da jovem e ‘Belle’, protagonista.

Estudante de letras em Sorbonne, universidade francesa, em confortável condição social, Isabelle nos leva, por passeios em casa e na faculdade,  a conhecer pedaços de sua vida. E é em uma sua aula, em um jogo pedagógico entre citações e trechos de vários autores, que um de seus colegas nos traz Rimbaud.  E a frase parece querer se encaixar à sua história, que corre paralela às aulas.

A beletrista, em seus  17 anos, perde a virgindade em uma transa-trama ‘sem sal’  e parece ganhar ali um interesse particular na urdidura daquelas situações. Ela começa, a partir daí, a se prostituir. Não pelo dinheiro, não pelo prazer, não por qualquer enfrentamento moral.  O  que nos parece, inicialmente, contorno extremo de uma irresponsabilidade típica da idade, vai ganhando outras cores. Ela insinua e nos dá a perceber,  um prazer pelas regras do jogo, pelas articulações que se estabelecem antes.

Sem se perder em qualquer justificativa moral, François Ozon nos coloca frente a frente com Isabelle e suas sem-razões de ser, muito segura de si e delas, ‘das sem-razão’. Quem precisa explicar o que? E a quem?  A verossimilhança, por vezes nos desconcerta.

Assim, vamos vivendo, ao longo do filme, dos fatos e mudanças, as quatro estações da protagonista que, entre experiências e ocorrências, vai crescendo em suas certezas, jovem e bela. A dona da história transforma um rito de passagem em um jogo na (ou da ) vida. Um filme instigante pela ordem do questionamento que coloca, nos desconcertando em nossas certezas morais.

Observação final: a trilha sonora, bem encaixada, merece nota.

domingo, 17 de novembro de 2013

solidão à deriva


Do diretor mexicano  Alfonso Cuarón, ‘Gravidade’ se mostra um cenário de desconforto e risco permanente.  Um pânico pela dimensão do desconhecido à espreita.

A trama chega a ser simples. Três astronautas no espaço, realizando consertos externos no telescópio Hubble , são surpreendidos por uma chuva de destroços decorrentes da destruição de um satélite por um míssil russo. Um deles morre e os dois outros ficam à deriva na órbita da terra.

Um dos pontos mais expressivos do filme é a qualidade técnica da obra. A engenhosidade das cenas, em envolventes e criativos planos sequência, a maior parte delas em pleno espaço, deflagra, por um lado, um aspecto visual de tirar o fôlego e por outro a máquina do universo em funcionamento, suas engrenagens girando. E o mundo humano à deriva, via Clooney e Bullock, conscientes da dimensão da fatalidade que os espreita … ou que já vivem.

De um roteiro simples, faz-se grande narrativa. Com os protagonistas sendo submetidos a todo tipo de contratempo em inóspito e hostil espaço, surpreende a maneira engenhosa que se articulam, atores e imagens.

Gravidade acerta por sua despretensão. Em nenhum momento Cuarón se mostra mais preocupado em transmitir alguma mensagem existencial ou apresentar subtexto mais qualificado. O filme não é, definitivamente, filosófico, mas suas imagens e contexto nos colocam dentro de questionamentos. A dimensão questionadora fica a critério de quem assiste. O filme não induz, mas deixa espaço para isto. Em cada um.

A hostilidade do universo nos confronta com a solidão em seu estado mais puro e eloquente.

O visual deslumbrante de Gravidade, via excelentes efeitos visuais e sonoros, nos leva a um passeio pelo espaço, colorido por forte tensão. Em um bom cinema 3D nos sentimos à deriva.

domingo, 8 de setembro de 2013

conto de fadas às avessas



Ensaiando passos pela vida adulta, colecionando mais tropeços que vitórias, Frances segue aprendendo a dançar conforme a música. No amor,  na possibilidade de vida comum, no trabalho, em projetos privados, em todas as esquinas de sua vida, enfim. Quase, só colecionando tropeços, na verdade, mas sempre se levantando. Sem trilha sonora ao fundo, adornando uma imagem de força e superação, sem grandes conquistas, sem um grande amor para colorir a história.

Frances é uma jovem dançarina que sonha com uma vida artística. Visivelmente sem talento ou notória aptidão para tal,  ela enfrenta vários percalços em seu caminho. Dignos, todos, de vida real. E ela segue se levantando e  levando a vida com humor. Desajeitada, na dança e na vida. e brincalhona, com ar de quem se recusa a crescer, ela tem na relação com os amigos e colegas ao redor um dos pilares de seus dias e sonha com o momento de se realizar na profissão para viver (e pagar) uma vida de cinderela. 

Frances Ha é um filme contido e todo possível  (podia ser eu). Ela é poliana  (viu?!?!?!). Encara bem todo  e cada obstáculo; sem heroísmo, mas com humor. 

O humor, aliás, é um ponto a se destacar. No filme e nela.  Casualmente, levemente, inteligentemente, seu mundo é lúdico e ela brinca com as ocorrências e obstáculos.  Sem tom de tragédia ou posterior vitória, superação.  O filme é no tempo de suas relações, de suas dificuldades e seu humor para lidar com tudo e todos.

O filme em P&B nos insere perfeitamente na atmosfera e no charme de Nova York, de Manhattan. O ritmo da cidade está presente, na vida de Frances, inclusive.

Quando ela começa a desenhar uma conquista, um projeto com contornos de real, comemoramos sinceramente, porque o sentimos (e a sentimos) possível.

domingo, 25 de agosto de 2013

elogio da reflexão


Buscando compreender extremos da conduta humana, ‘Hannah Arendt’ é um convite à reflexão.

O filme escapa do maniqueísmo simplificador ao analisar difícil capítulo da história complexa dos homens, suas causas e bandeiras, desde sempre. As ideias ousadas e corajosas de Hannah Arendt sobre o nazismo são o fio condutor do filme da diretora alemã, Margarethe Von Trotta, que mostra os caminhos das reflexões da pensadora até chegar ao conceito de ‘banalidade do mal’.

A teoria defende um efeito burocratizador dos atos com a assinatura do nazismo; um sistema dotado de estrutura de poder, que fazia do terror a forma central de relação do Estado e seus cidadãos. Normas, autoridade e momento histórico, portanto, teriam um peso ‘relativizador’ nestas ocorrências ou na(s) culpa(s) delas decorrente(s).

O filme foca em um momento particular da vida de Arendt quando ela, já então renomada filósofa, se oferece à revista ‘The New Yorker’ para fazer a cobertura do julgamento de Adolf Eichmann, criminoso de guerra nazista, em Jerusalém, 16 anos após o fim da 2ª Guerra Mundial.

E sua postura nos artigos desperta polêmica, ao nos convidar a pesar, junto com ela, que nem todos ali eram demônios, alguma espécie de aberração moral.  A ‘banalidade do mal’ se traduz na constatação de que muitos eram meros burocratas, convencidos da legitimidade do nazismo, abdicando da consciência individual para medir seus atos.

O filme coloca assim, frente à frente, extremos opostos: o horror dos atos X a mediocridade dos homens. Buscando não personificar o estado nazista em indivíduos, ela se explica: “o maior mal do mundo é o cometido por  ninguém”.

Um mérito forte do roteiro é nos trazer Hannah inteira. Tem foco, sim, na intelectual, filósofa e professora, mas não a mitifica, trazendo também a mulher, a esposa e suas relações cotidianas.

Suas análises geraram crítica, polêmica, indignação. Sua avaliação justificando, de certa forma, a postura de Eichmann, foi considerada uma absolvição. Apesar de judia, perseguida na Alemanha e feita apátrida, entre outros direitos privados; no olho do furacão, portanto, ela se muniu da capacidade de olhar de fora. Conseguiu refletir, pesar e reavaliar. E nos levar em suas reflexões.

domingo, 26 de maio de 2013

'a falta que ama'



Elena, de Petra Costa, é um documentário pessoal, autobiográfico, centrado na história de sua irmã. Em filme elegante e sofisticado, no compartilhamento de uma história íntima, ela nos traz a vida de Elena, talentosa atriz que vai para Nova York tentar uma carreira no cinema e, frente a desilusões e frustrações, termina por se matar. Aos 20 anos.

Mas não é a trama, o roteiro, a biografia ou uma sinopse, como esta acima, o que melhor define o filme. É a memória de um sentimento, seu entorno afetivo e a sensibilidade que ele exala e inspira.

A família, parece, tinha forte hábito de registros e filmagens. E a diretora faz bom uso deste extenso (e intenso) material de arquivo que traz, além de toda a riqueza de conteúdo sentimental, uma beleza plástica incomum. O tratamento das imagens, buscando representar a memória; o uso da cor, da luz, do foco, dá um tom impressionista em atmosfera onírica.

A intimidade proporcionada pelas incontáveis imagens de arquivo, antigas e atuais, humaniza o indigesto e doloroso tema. Na medida do possível. Doces vídeos caseiros dão o tom da saudade e da falta. A ‘falta que ama’.

Compondo o roteiro, Petra segue os passos da irmã em tempos de outrora, em Nova York. É uma busca por um encontro com fragmentos de lembranças de alguém que ela pouco conheceu.

Outros registros, os sonoros, roteirizam este encontro, pois Elena tinha por hábito enviar à família gravações, em áudio, somente, de suas experiências cidade afora. Petra vai, assim, construindo e concretizando uma memória por rastros de pegadas da irmã e suas aventuras e experiências.

Quando a história toda vem à tona é uma avalanche emocional contagiante. Em uma sua linguagem de dor, Petra nos conduz história adentro, pelos caminhos (e descaminhos) de Helena. Por Nova York e pela vida. Ela nos aproxima, sobretudo, de sua emoção, como quando diz: “e eu percebo que você morreu pra sempre.”

Elena se traduz na poesia da saudade de alguém que se foi.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

crônica de uma morte anunciada



O fato do filme  estar em cartaz exclusivamente em shoppings  (todos) me colocou um pé atrás. Eu já tinha um, é verdade, pela grande produção, pelo alarde blockbuster. Isto queria dizer algo. Nenhuma salinha de rua, pretensamente cult ou mirando no telespectador por si e em si, não no telespectador secundário, antes consumidor.

Mas, nos últimos minutos do segundo tempo, achei uma salinha perdida por baixo Pinheiros. Melhor: só eu e outras dez pessoas, no máximo, achamos.

Cedi a ímpetos nostálgicos, orbitando anos 80 afora e fui ver  ‘Somos Tão Jovens’, longa que retrata a juventude do líder do Legião Urbana, em Brasília.  Além da boa descoberta da sala, o filme me surpreendeu. Registro autêntico de uma época tão importante para a música nacional, ganha pontos por não apelar para sentimentalismo. O filme não é recheado de clichês, como se poderia esperar do tema: cinebiografia de um músico, ídolo de proporções messiânicas, que teve morte prematura, no auge de sua carreira.

Apesar do título destes escritos que se seguem, não, o filme não trata da morte do protagonista. Nem sequer aborda. O filme se estende do período de formação do grupo, antes mesmo de se fazer Legião, até um primeiro show fora da zona distrital, no Circo Voador, no RJ.  

Retratando o nascimento da banda, ‘tijolo por tijolo’, o longa bem pontua os maneirismos de Renato Russo, sem fazer deles piada, só diferença. E o ator passa bem a personalidade do protagonista, sua excentricidade, genialidade latente e sua insaciável fome de mais.

A escalada do grupo principia em festas de amigos através, inicialmente, de uma outra formação. A partir de um ‘Aborto Elétrico’, nome de seu projeto inicial, uma ‘Legião Urbana’ começa a ganhar corpo. Em ótima ambientação da época somos apresentados ao anônimo Renato Manfredini Jr, adolescente classe média de Brasília, professor de inglês, inteligente e insaciável, vítima de uma doença óssea de nome estranho, epifisiólise, que o deixa prostrado na cama por um ano e o leva, assim, à música

 O filme retrata os musicalmente prolíficos anos 80, uma época de surgimento de outras bandas tais como Plebe Rude, Paralamas e Capital Inicial, tão trilha-sonora de ‘um’ nosso tempo; o que se sente por alusão ou referência.

‘Somos tão Jovens’ ganha por nos apresentar uma parte da história que não conhecemos, a gênese do fenômeno cultural Legião Urbana e também ganha por trazer uma sucessão de hits cujas letras comoveram quem foi jovem há 30 anos, canções tão parte da trilha sonora de um tempo. Difícil, aliás, não seguir cantarolando por todas as performances representadas no filme.

Quando o filme acaba, uma das canções segue ecoando em nós: “Mas eu dizia ainda é cedo, cedo, cedo…”

“Força Sempre!”

quarta-feira, 8 de maio de 2013

quando você me deixou, meu bem



Fragmentos cotidianos de um abandono e os abismos (subjetivos) dele decorrentes. Assim, eu resumiria,  em uma frase, Abismo Prateado, o novo filme de Karim Ainouz. Sob demanda, porque não sou alguém a quem se possa chamar de pessoa de poucas palavras. Definitivamente. Principalmente se as palavras são como estas, as escritas. 

Ainda ali, pós primeira tentativa de definir, de resumir, eu precisaria abrir parênteses ou observações ou  ‘pê-esses’. Filme que não comporta definições ou subtítulos rápidos. Mesmo enredos, há que se desconfiar porque o terreno subjetivo é extenso (e intenso).

Apesar de silente e minimalista, ‘Abismo Prateado’ pede contextualizações, ou mesmo digressões, porque traz, antes de tudo, contornos sentimentais e pede conclusões pessoais. Porque se mostra aberto nas possibilidades das interpretações e dos significados, pela experiência quase sensorial e pouco discursiva em narrativa pautada por lacunas.

Livremente baseado em ‘Olhos nos Olhos’, canção de Chico Buarque, e aqui cabem outras digressões, o filme mostra um dia na vida de Violeta, a dentista de 40 anos, interpretada por Alessandra Negrini, que vê sua vida à beira de um abismo após descobrir, via SMS, que o marido a deixou.

O filme não é a trama, o enredo por traz ou adiante. É a linguagem e os recursos narrativos utilizados. Em silêncio eloqüente, a personagem segue seu caminho, deixando  que os enquadramentos, o som ao redor (!!!) entre outros recursos, nos contem de sua dor e deixa que cada um de nós, expectador, dê os contornos finais.

 É um despenhadeiro sentimental, o que vive Violeta, em uma brusca desestabilização. E é na expressão deste ‘momento sentimento’ que o filme se desenha. Quase sensorialmente.

Mas a redenção da dor de Violeta , o longa nos mostra devagar, está no conforto da coletividade e na força dos elementos cotidianos nela inseridos e partilhados. O fato de, o 'pessoal' não encontrar espaço, traz conforto às exigências da vida comum. Porque ser um entre tantos guarda mais imposições cotidianas e menos dificuldades, silêncios, abismos.

A escolha da canção, de 'Olhos nos Olhos' deveu-se à sua poesia, mas também à sua abertura a interpretações, segundo Karim Ainouz. Quando, há alguns anos, foi convidado pelo produtor Rodrigo  Teixeira para dirigir um filme inspirado nas canções de Chico Buarque, ele escolheu uma. Esta.

E a canção dá o tom da leitura da dor, das possibilidades. Nada se enreda, tudo se insinua, olhos nos olhos.

Nota metalinguística: merece parágrafo a atuação de Negrini. Em um papel com forte carga emocional, ela, dá à personagem uma boa medida de sofrimento e muitas vezes, monopoliza a atenção do espectador, tamanha a sua entrega, expressando e manifestando, quase fisicamente, sua dor. E ‘Abismo Prateado’ soube pôr no caminho da personagem elementos que pontuam este mal estar.

O filme se revela uma experiência sensorial e pouco discursiva em uma narrativa pautada por lacunas. Cabe a nós pontuar. FIM.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

em ebulição



Eu, ao contrário do que andei lendo por aí, antes de ver o filme, sabia, sim, quem é Jorge Mautner. Veio daí minha opção por ele em um sábado à noite.  Mas não tinha a dimensão de seus significados ou mesmo de sua personalidade.

Com vasto material de arquivo entremeado por performances atuais, ‘Jorge Mautner, O Filho do Holocausto’, narra a evolução artística de seu protagonista. O filme proporciona uma viagem. Melhor, duas: pela vida e mente do artista. E caminho afora, ganhamos a dimensão da genialidade de um cara movido pela arte. E em ebulição.

No conteúdo, o ‘doc’  traz um pouco de tudo o que o gênero costuma mostrar. Múltipla como sua fonte, esta história se faz de muitas peças. Uma cinebiografia recheada de imagens e performances, novas e antigas, ricos depoimentos de seu entorno afetivo e profissional; tendo como pano de fundo o contexto histórico de seu tempo e sua vida.

No início, nos vemos  frente ao filho do holocausto. Começamos nesta estrada, com a vinda de seus pais ao Brasil e sua relação com a segunda guerra mundial. Aqui, ele se torna membro do Partido Comunista e é, assim, exilado nos EUA e em Londres, onde conhece Caetano e Gil, então tropicalistas. É dada, então, a da largada para o Mautner que conhecemos, artística e culturalmente tão nosso e tão rico!

Na forma, no entanto, é que o filme vai além.  Aqui é, também, uma linguagem múltipla e segmentada, mas original.
Em alguns momentos, o artista lê sua biografia, se interpretando, personagem de si. Em tom dramático, poético, algo filosófico, mas lúdico, por fim; Mautner nos traz Mautner, em diversos níveis de metalinguagem.

Os depoimentos, todos, ocorrem em um estúdio. Vários artistas, como Caetano, em forte participação, tecem elogios. Bial, diretor, interfere fazendo perguntas em cena. Sua filha Amora, em momento expressivo, confronta o e questiona o pai, amorosamente, acerca de sua infância insólita.

Destaque, também e ainda, é a trilha sonora composta por diversas canções suas executadas com esmero por forte time da música brasileira. Ali estavam e tocavam e cantavam, Nelson Jacobina, Kassim, Domenico, Pedro Sá, entre outros.

Assim, o filme é um grande show deste multiartista, com produção grandiloquente. Compositor, cineasta, personagem heterodoxo da cena cultural brasileira, Mautner se revelou, para mim, um poeta de ideologias. Múltiplos. Ele e elas.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

o que nos espreita


Não, ‘Amor’, o filme, não é um romance, como o nome sugere.  Não daqueles de trama adocicada, com trilha sonora envolvente e lágrimas rolando.História de amor profundo, sem sentimentalismos, no entanto; cujo tema, de fato, é a dignidade da velhice e o direito de escolha quando saúde e sanidade se esgotam.

‘Amor’ traz a história  de um casal de terceira idade interpretado pelos magistrais,  Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva. Veteranos na nouvelle vague francesa, eles vivem aqui, Anne e George que, na primeira parte do filme, dividem pequenos prazeres do cotidiano com graça, nas felicidades, nos obstáculos, na simplicidade do dia a dia. Eles bem desenham e nos envolvem nas sutilezas de um cotidiano partilhado há muitos anos, com doçura, carinho e respeito.

Mas Anne sofre um derrame e eles passam a encarar juntos severas adversidades. E em uma segunda parte da trama, várias sequelas e debilidades passam a dividir os dias com eles que, sozinhos, vivem uma gradual descida ao inferno, no detalhe. E eles enfrentam com dignidade a irreversível derrocada produzida pela doença e acentuada pelo envelhecimento.

Um tratamento delicado, fundado em sentimentos nobres. A confiança, a entrega , a maneira serena de encarar os fatos da terrível fatalidade que os acometeu, suas consequências e sequelas.  E é muito forte e intenso, no filme, o modo como eles vivem cada uma destas sequelas, cada deficiência, com absoluta consciência do degradar da velhice que os espreita.

Não é um filme fácil, mas comove pela inteligência e sensibilidade adultas ao retratar a vida de maneira crua e realista, mas delicada e densa.

Trintignant domina o filme simplesmente de modo magnífico, nobre, corajoso. A dureza dos cuidados cotidianos revela uma  cumplicidade incomum e o desenrolar das opções à frente deles é conduzido com grande respeito a tudo o que eles sempre foram.

Em Anne, a progressiva transformação dos gestos, expressões e movimentos, no decorrer da história, destaca uma atuação impecável. A maneira como sua elegância é despedaçada e vai cedendo espaço às falhas no  corpo, em meio a tanta dor e sofrimento, conduz, insistentemente, a uma pergunta:  vale a pena viver desta forma?

Os conceitos de certo e errado, moral e imoral vão sendo desconstruídos a cada sequencia. A miséria humana se mostra um peso insustentável diante do drama que eles vivem e da dimensão do 'irreversível' que os espreita.

O filme passa, de forma clara e forte, a mensagem de que é diante das adversidades e dificuldades que se 'prova' o amor de fato. A coragem  é forte  no filme, este ‘grito’ pela liberdade individual, pelo direito de escolha em momento tão extremo.

Trata-se de um filme que deixa o espectador triste e pensativo sobre o fim inevitável de uma vida, mas não manipula o pranto. Faz refletir. É tudo conduzido de forma lenta, gradual e crua.  Não há nenhuma glamorização.

Emocionalmente, é um nocaute. O filme se traduz em uma tentativa de conferir inteligibilidade a um gesto extremo e radical  e nos mostra, com crueza, algo que nos esforçamos por não nos lembrar: a inexorabilidade do fim.

sábado, 12 de janeiro de 2013

brutal e poético




Monsieur Oscar é um homem sombrio que passa o dia em sua limusine luxuosa, enquanto passeia por vidas paralelas, encarnando diversos personagens. Ele nos parece um ator representando, alternando-se entre um assassino, um pedinte, um industrial e vários outros.

Mas não há qualquer evidência de uma ‘dramatização’, de fato. Em representações despropositadas e gratuitas,  por si e para si, ele nos parece perseguir a beleza e o motor da vida em cada situação, relação, mulheres e os fantasmas da sua memória.

Holy Motors, filme de Leos Carax, não tem uma mensagem precisa ou um roteiro definido. A gratuidade e ausência de explicações de tudo chega a ser perturbadora. Foi considerado por muitos como estranho, incompreensível.

O diretor nos apresenta, de forma brutal e poética, pequenas histórias, de caráter infinito e circular: elas podem recomeçar, se transformar, voltar atrás. Em narrativas múltiplas, que jamais se completam, ou se explicam, sem qualquer mensagem precisa, Holy Motors é certa e absolutamente metalinguístico. Através de encontros pré-estabelecidos, ele vive uma ficção diferente a cada momento do dia. Cada 'encontro', como são chamados seus 'atos', é pré-construído por ele, juntamente com sua motorista.

Assim, ele não é apenas Oscar, mas também um assassino de aluguel, um músico, um idoso  falecendo, uma senhora pedinte. São vários personagens, vários fragmentos de histórias, que não se completam ou se explicam.

O filme é complexo e misterioso. Leos Carax mergulha seus personagens na própria essência da representação, sem munir o espectador, em momento algum, de chaves de leitura. Cabe a ele projetar o sentido da obra neste personagem que é todos os homens do mundo, dentro e fora das telas.

A chave talvez seja esta incompletude que nos move, desde sempre. Brutal e poético.