Translate

domingo, 11 de março de 2018

confessionário musical



Não sei no resto do mundo, mas aqui em Nova Era, hoje é dia de São José, que é santo padroeiro da cidade, inclusive. Apesar de não ter religião, aproveito o ensejo da temática religiosa, all around me, para uma confissão. Nada pecaminoso, só um pequeno equívoco bobagem; só mesmo uma minha forma de aproveitar as boas motivações que a data traz.

Dentro de meu universo musical, entre os alicerces de meu gosto por musica, na verdade, está o samba. Não o samba clichê de música brasileira, com suor, cerveja e mulata de biquini.(imagens clichê de minha juventude!) Não. Samba de raiz, dos bambas, do Cartola e dos cartolas; Paulinho (o da Viola), Nelson Sargento, Monarco, Candeia, velha–guarda inteira; Mangueira, Madureira e Portela!

A questão da confissão é que, nem mesmo gostando muito disto tudo tanto e tendo sido frequentadora quase sócia do Bar Cartola, em BH, especializado no gênero, nunca dei crédito nenhum ao Diogo Nogueira.

NENHUM! Não é que nunca o ouvi, só. Nunca o considerei, na verdade e nunca quis conhecer.
Era, para mim, muito galã global. Thiago Lacerda demais, para ser bom de fato! Coisas que só a Globo faz por você!

É que toda unanimidade é burra, não é assim? Pois é, o cara tinha, na mídia convencional, nome e sobrenome consenso (li que ele tem 14 músicas (QUA TOR ZE) em trilhas sonoras de novelas. Devia ir ao Faustão! Assim, preconceituosa, mas  justificadamente, (por paradoxo que possa parecer)  nunca foi digno de meu querer!

Mas dia destes, lendo, por acaso, en passant, de um seu lançamento, MUNDUÊ; ver que tinha participação do Hamilton de Holanda me cutucou as convicções.

É que Hamilton é, para mim, parâmetro, referência. Me fez parar e pensar. “Ué, será? ”

E aí comecei a botar naquela equação outros fatores e variáveis que, sim, eu sabia, mas não, nunca encaixava, tudo junto e misturado.

1–filho de João Nogueira. Diante de meu preconceito em ré maior, eu ignorava esta informação. E este negócio de filho de peixe é broma... pra inglês ver.

2– A Portela. O elo, as homenagens, releituras e parcerias.

Eu já sabia dissos, mas separadamente, cada qual no seu quadrado. Agora, com tudo junto e misturado e regido por Hamilton de Holanda, eu decidi ceder minhas convicções e, experimentar Munduê, lançamento recente, e acabei por me desarmar de vez.

Não, não estou elegendo o álbum um cânone do samba de raiz, não. Estou dizendo que é gostoso, digno do ritmo que traz! Álbum dito miscigenado, por misturar velho e novo, unindo tradição e inovação, como espelha a trajetória do Diogo. Trabalho consistente alcançado por 10 anos de produções e parcerias significativas. E um puta arranjo!

Deu vontade de mais, mais do mesmo Munduê e mais de sua discografia, que agora quero conhecer. Vou pesquisar, ouvir e, ao que tudo indica, gostar. Pronto acabô! Põe fé que já é!

sábado, 24 de fevereiro de 2018

vamos brincar diferente?


Vi uma frase no Instagram de uma minha interseção que me alimentou um turbilhão. “Arte como terapia”. Me ‘moveu’ e mexeu comigo de uma maneira forte porque é assim que encaro. É um pouco mais forte, na verdade, arte como alimento do espírito e como mola propulsora de querências e vontades, o que, de certa forma, é terapêutico, não é assim? Um rico escape cotidiano para os contratempos e dores da vida, humanos que somos.
E pensando na arte enquanto algo abraçado e vivido cotidianamente, me lembrei de uma feira/exposição a que fui na semana passada. Falo do File. Parece piada a sonoridade desta frase aí atrás, mas é coincidência, e só. Então, como eu ia dizendo, me refiro (melhorou?) ao FILE, Festival Internacional de Linguagem Eletrônica.

A interatividade como linha mestra!

Já fui a várias edições deste festival, em BH, quando ali morava. Enquanto frequentadora assídua de festivais de artes, feiras e afins, não me imaginava ficando de fora. Hoje, confesso que não me convencia muito. Achava pretensioso. Não entendia as fronteiras da proposta e ficava achando que aquilo se propunha a arte. Bits, bytes, fios e botões  querendo posar de etéreos, abstratos, conotativos, sei lá! Linguagem e estética puramente eletrônicos, se pretendendo arte contemporânea ou algo assim.
Uma imagem plástica futurista (criada por mim, confesso) me dava preguiça. A coisa eletrônica, nem
A arte de cada um!
muito disfarçadinha, alcançava, para mim, o apuro estético, o valor etéreo ou o questionamento do status quo que seriam, segundo preconceitos meus, definidores da arte. A mineira em mim franzia as sobrancelhas e resmungava – han! Mas no ano seguinte estava eu lá de novo, com cara de imersa naquele universo e posando de moderna, contemporânea, digital.
Este ano, de passagem por BH, o bendito estava em cartaz no CCBB.  Tenho que confessar que, assistindo às instalações com a questão do formato e da linguagem em mente, fui definitivamente fisgada.Uma linguagem e uma estética    embebidas daquele universo, nos plantando questionamentos de como caminhará a arte neste admirável mundo digital que nos vai cercando e condicionando projetos e processos. E o tema era bem isto: ‘Arte eletrônica na era disruptiva’.  Uma plástica do futuro, mas não robótica, arquetípica. Linguagem e plástica eletrônicas. Formas e cores, quebrando paradigmas na proposta, forma e significado.

Todas as conexões do pensamento materializados!
Sinestésicas e interativas, cheias de som e de fúria, além de luz e cor.  As instalações misturavam 
cores, desenhos, formas, com sons e muita interatividade.

Uma instalação, particularmente, me fisgou e segurou. Vídeos musicados, no que entendo como videoclipes, todos orbitando as batidas eletrônicas, do mundo INTEIRO em meio a imagens muito dentro do universo da arte contemporânea. Uma ilha de quatro faces com telas em todas, exibindo videoclipes e com fones para os espectadores ouvirem as músicas que regiam tais imagens (consegui explicar? no images!). A música ímã, hipnótica. Não queria sair dali!

Confesso que nunca me afinei de fato com as batidas puramente eletrônicas, analógica que sou! Fui apresentada a muita coisa boa em tempos idos, que me mostravam que a seara eletrônica vai além da coisa tão somente mecânica que sugere (aos leigos). Bem, mas não ficou... Não fui além sozinha, não desenvolvi um olhar, uma visão, deixei passar. E passou.

Mas ali, no FILE, em BH, 2018, voltou. E voltou forte, me inundando, transbordando. Tive ganas de compartilhar, dividir, experimentar e dançar. Vontade de falar que, sim, eu estava, pela primeira vez, falando aquela língua. A instalação com músicas e videoclipes com sonoridade algo eletrônica do mundo TODINHO, me surpreendeu pela qualidade e sofisticação das batidas e pelo ritmo! Que delícia!

E foi exatamente assim que entendi a diferença da minha recepção para tudo tanto com relação às outras vezes. Era a língua, a linguagem, uma abordagem que eu,enfim, compreendia. A maneira que aquele universo se comunica e vai se comunicar conosco. Os questionamentos que ora se impõem. É claro que temos alguma resposta (mas, em permanente evolução) para muito do que vivemos. Aquela exposição plenamente interativa é prova disto. Me arrependi de não ter levado o Lourenço.

cada um monta sua obra!
Música com os pés!
 Ali podia tudo que ele sempre quer fazer nas visitas a exposições de arte a que vai comigo. Podia tocar, pegar, entrar, ouvir, dançar, correr, sentir, cheirar, inventar. Uma pisada, uma nota musical; mais um passo, uma cor, seguindo andando, uma profusão de luzes! Em uma instalação, pequenos compunham músicas com as pisadas; os passos no caminho que se faziam música e eles adoravam!

Uma dica forte que já temos hoje é que a interação fixará residência em primeiro plano.  A comunicação efetiva da arte com o seu público. As cores, formas, texturas, sons e significados em diálogo, produzindo obras individuais e particulares, de acordo à impressão de cada par de olhos e cada corpo e cabeça que se entregam ao convite das obras.
O que não havia parado para pensar é que o festival trata de Linguagem Eletrônica. E aí é um universo! Tem, sim, um ângulo artístico, mas vai além disto. E é aí que mora o interesse e o interessante do projeto. Fui a esta edição do File BH, no CCBB, com este olhar e minha vida mudou!

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

inclassificável ou desclassificada?


Deixa  eu contar um troço ‘procês’. Eu andei desenvolvendo umas teorias médicas, psiquiátricas, cognitivas, sei lá o quê. Não sei encaixar ou classificar o campo de minhas descobertas . Vamos fazer assim: eu lhes conto o que, as historinhas das ocorrências, contextualizo, dou o ponto de partida, explico cada nuance, cada etapa, conto o meu veredicto final e deixo, democraticamente, nas mãos de vocês a (des)classificação da teoria!

Com base na temática dos posts da Louca nos últimos anos, imaginem de que se tratam minhas teorias? Com base nos textos que venho escrevendo vocês podem chutar duas coisas: é algo sobre o acidente, meu divisor de águas, sobre meu (interminável) processo de recuperação ou é algo cultural. Não é assim? A louca tem abertura e liberdade total de repertório, podendo ser tudo e qualquer coisa, mas seu disquinho agarrou nestas faixas, não sei porque. E quem chutou estas opções acertou porque é uma teoria 'inclassificável' ou 'desclassificada' sobre o acidente. O pós, a recuperação!

É meu interminável processo de reconstrução cognitiva. Hein? Sou eu no meu processo de me reconstruir eu mesma depois de perder a memória, a capacidade de memorizar, o raciocínio lógico, a capacidade de links e conexões, entrelaçando fatos e fotos J; enfim, sou eu tentando me reconhecer e me provar eu mesma depois de tudo tanto.

Então, chega de prosa e vamos às teorias ou me perco em divagações e devaneios como me sói fazer vezenquando (quase sempre, na verdade!).

É o seguinte. Modéstia às favas, sempre fui boa de português, gramática, literatura e outros temas linguísticos  ;-) ! Acontece que depois do acidente comecei a cometer erros pornográficos com a língua! Peraí, deixa eu explicar, antes que todos comecem a pensar que fiquei devassa na temática escolhida para meus escritos. Ando cometendo erros ortográficos absolutamente absurdos e é esta a 'pornopopéia'! E o mais inusitado e engraçado é que eu sou a primeira a reconhecer o erro assustador. Imediatamente. Escrevo errado e antes mesmo de acabar de escrever a palavra, olho para a sílaba errada e quase tenho uma síncope de estranhamento.

Sem exagero, escrevo PUTA errado, de maneira que analfabetos não escreveriam, como uma criança em processo de alfabetização, nas primeiras palavras... e tomo um susto gigante com o que ousei a colocar no papel. Deixa eu dar alguns exemplos para vocês entenderem o grau do meu analfabetismo momentâneo e o abissal susto posterior. A questão é que sou passiente(!!!) com minhas falhas. Passiente tanto no caso daquele do hospital ou do médico quanto daquele que espera augo (!!!)sem reclamar.  É... aquele augo de alguma coisa. Algo feito augo. Nesta autura (!!!) do campeonato vocês já devem estar se perguntando se eu al menos (!!!) concluí a primeira série do primeiro grau ou tomei bomba.  

E por aí vai... Deu pra sacar o nível? Antes de acabar de escrever a palavra, levo um susto forte com a merda que estou fazendo, ou escrevendo, com o perdão da péssima palavra. E fico injuriada... de onde tirei isto? Se sei, no segundo após a escrita, que está errado, porque escrevo? Bom... é aí que vem a teoria. Isto tudo, até agora, foi só contextualização.  Vamos ver aonde chegamos.

Atenção médicos, pedagogos ou psiquiatras (vai saber), meu processo de viver este lapso instantâneo do pensamento e da memória me levou a concluir que, a perda de faculdades cognitivas me faz usar do instinto em alguns momentos. Assim, pelo instinto do sentido da audição, busco um símbolo que bem represente aquele fragmento sonoro e escrevo exatamente como ouvi, sem considerar gramática ou regras.

Mas como não perdi a memória antiga e, em mim, o português e a gramática são tão antigos quanto eu, vieram comigo no nascimento (olha só o que estou falando, escrevi agora nacimento, na sentença aí atrás e logo corrigi... é recorrente... e grave!). Então... como o português e a gramática são regras que, haja acidente para me roubar, olho para a palavra e instantaneamente sei que está errada, absurda, mal colocada.

Então, minha teoria é esta: penso na palavra e o instinto auditivo me leva ao erro e a cognição feita memória, faz o reconhecimento imediato.

Me digam amigos, se acham que meu caso é para questionar um médico e um pedagogo sobre a teoria que, vivendo minhas eternas sequelas, percebi ou se é caso para um psiquiatra mesmo, sem mais. Estou doida e já é!

Me contem o que acham disto tudo? Deixem a opinião de vocês nos comentários abaixo, vai...  meu caso é para a academia considerar, pesquisar e postular ou para  um psiquiatra me colocar em meu devido lugar... conta aê... ah o campo de comentários logo aí, olha!

Ah... a outra teoria vai ficar para o próximo texto porque pelo tamanho que este vai ganhando, quase ninguém deve chegar aqui e saber de meu segundo insight  acerca de meus processos de recuperação.

Põe fé que já é!

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

inusitadamente, excelente!


Descobertas musicais frequentemente recheiam meus dias de um prazer algo profano. Porque acontece sempre em algum momento escape de obrigações cotidianas. E não consigo me furtar a uma entrega quase erótica. Erótica, no sentido sensual porque a música carrega para mim, esta característica gostosa.

Hoje, me entreguei algumas vezes, não sem alguma culpa diante de meus deveres, ao lançamento de Zélia Duncan. Inusitado. Quer dizer, inusitados, a entrega e o album. Um porque até tenho um outro álbum dela, em homenagem a Itamar Assumpção, mas zero hábito de ouvir. Dois porque o álbum nasceu de um projeto de shows com este nome e significado, portanto, INUSITADO.

E, para ela, assim soou o convite a participar deste projeto: Inusitado. O convite era (e foi) cantar Milton sem harmonia, só voz e Cello, Zélia Duncan e Jaques Morelenbaum. Já deu pra sacar que o que o projeto tinha de inusitado e ousado, tinha também de substancioso e promissor, né?

Zélia e Morelenbaum cantando Milton. Nunca fui de ouvir a Zélia porque nunca houve nada que me fisgasse, mas nunca tive nenhuma palavra contra também. Agora tenho várias a favor. Inusitado, sofisticado, ousado, qualidade.  Na entrevista em que fala do lançamento do álbum, ela diz que Milton está entre aqueles que a fizeram querer cantar, que ele estava no lugar das coisas encantadas. 

Aqui, me identifiquei absolutamente. Primeiro pelo lirismo sofisticado de suas canções, algo sublime, perto do sagrado, para mim, pelo menos. Segundo pela memória afetiva deste nome mineiro que guardo comigo. Quando, adolescente, comecei a querer ouvir coisas classificadas como ‘de qualidade’, inaugurei minha seleção de escolhas inquestionáveis com ele! Até pela unanimidade.

O inusitado, que era cantar Milton sem harmonia, foi, na verdade, um truque! Segundo Zélia Duncan, chamar o Jaques para ser parte do projeto é como se estivesse chamando uma orquestra. Com ele, ouve-se o arranjo inteiro no cello, somente!

De caráter “inusitado”, o disco reúne 14 clássicos do repertório do Milton, ‘arranjados’ com intensidade e serenidade, comuns em todo repertório do autor. O minimalismo do encontro e suas peculiaridades dão frescor ao projeto! Saboroso!

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

samba de mon coeur qui bat

mon coeur qui bat
Abre parêntese, Samba de mon coeur qui bat significa samba de meu coração que bate e é uma canção francesa da Coralie Clément, que sempre ouço, fecha parêntese. Vamos ao texto!

Sim, eu sei que este é o nome de uma canção, não muito popular, em terras brasileiras,  mas velha conhecida minha, desde há muito. E esta foi a última música eleita para trilha sonora de meus dias. Mania compulsiva, confesso, quase um TOC, me enche de prazer observar fatos e pessoas ao meu redor e casá-los com alguma canção de meu hipertexto musical!

Já cheguei avisando à Louca que isto será só uma breve nota. Não vou me estender ou me perder em meus descaminhos favoritos, as palavras! Assim, deixa começar logo para não agarrar em contextualizações, devaneios outros e me enrolar.

É que este mon coeur qui bat, meu coração, personificado no Lourenço, está batendo tanto ultimamente que já vai fazendo um samba.

Tenho comigo, desde o nascimento dele, um caderninho, onde anoto tudo que ele vai descobrindo, falando, aprendendo, fazendo de engraçado. Sim, um caderninho e uma caneta, objetos tridimensionais reais que as novas gerações já vão desconhecendo. Era para durar a primeira infância toda, mas, bem, já acabou! Junta meu gosto pela escrita com o grau de aceleração dos aprendizados do Lourenço e aí já não preciso explicar.

Bom, o primeiro caderninho acabou e eu pensei em parar por aí porque ela já está ficando crescidinho, 2 anos e pouco, as coisas já vão deixando de ser, assim, tão bonitinhas, tão especiais. Qual o que! Parece que, brabo com minha decisão unilateral, ele começou a nos atropelar a todos com descobertas, novidades e graças, tudo ao mesmo tempo agora!

E aí não tinha caderninho para anotar.

Bom, fiquei quase um mês engolindo as novidades, me remoendo e lamentando não ter como guardá-las. Anteontem, por fim, botei um ponto final neste meu sofrimento lamurioso e comprei um bendito caderninho azul (ou azul 'cruzêro' como ele diz, pós lavagem cerebral da titia Apaula!) para ser a parte dois das memórias das travessuras do Lourenço bebê.

E nestes três dias, já foi uma avalanche! Já tenho umas 10 páginas do caderninho azul 'cruzêro' escritas. Hoje de manhã, ele me coroou a decisão de seguir escrevendo, seguir guardando, com um presente gostoso para o meu coração que, desavisado, se derramou em pranto!

Acordamos cedo e, às 6 da madruga,  ele foi para a cozinha comigo para preparar minha vitamina power plus academia e o leitinho super leve pouco e devagar dele, porque o mocinho andou vomitando ontem à noite.

Eu de pé, em frente à pia, rodeada de utensílios e pacotes e ele sentadinho em um banquinho. Ele desce, vem andando até onde eu estava, agarra minhas pernas, olha para cima, para mim e fala: minha mamãe! Meu coração tropeçou, mas não caiu. Peguei mon coeur no colo, fui enchendo de beijinhos, falando 'meu Lourenço' e ele repetindo, 'minha mamãe'.

Peraí que ainda não acabou!  Era só uma nota, eu sei, mas tá quaaaaase, eu juro!!

Mãe chegou na cozinha e já fui, direta e atropeladamente, contando para ela, entre emocionada e orgulhosa! E ela ficou brincando, perguntando a ele, uma hora quem eu era e outra hora quem era a mamãe dele. Ao que ele respondeu enfaticamente (o enfático é retórica minha, confesso!): Poliana Guerra!

Preciso comentar e falar alguma coisa de minha emoção para finalizar? Samba de mon coeur qui bat!


sábado, 20 de janeiro de 2018

dois pesos, duas medidas




Funciona assim: para um assunto, situação ou ocasião muito similar a uma outra qualquer, você tem dois tratamentos opostos, absolutamente distintos; díspares até!

Acontece nas melhores famílias;  já aconteceu comigo algumas vezes, mas a última me marcou pelos contextos e nuances justificativas que ela trouxe consigo.

Não sei se vocês, leitores contumazes da Louca, sabem, mas eu tive um acidente grave há alguns anos atrás. Um troço brabo mesmo! Sou deveras reservada neste assunto por temer me expor e me prejudicar de alguma forma (só que não!!! ;-). Mas hoje, assumindo a Louca que há em mim, resolvi tratar do tema, sem reservas, em sua relação com outro tema, porque conectei os dois e fiquei me perguntando porque agi de maneira tão dispare em situações assim, deveras assemelhadas!

Depois do acidente, depois de um ano de fisioterapia intensiva, depois de muito me recuperar e melhorar, as pessoas ao meu redor diziam (e ainda dizem) que eu ‘manco’, ou piso descompensadamente, ou forço a perna ou qualquer coisa que denote alguma dificuldade na marcha. Bem, o caso é que eu não noto, mas TODO  mundo ao meu redor me conta assim. Então, deve ser verdade!

Recorrentemente, pessoas que não me conhecem  e não sabem o que me faz, como dizem, forçar a perna tão tanto, me oferecem ajuda, me oferecem assento, me oferecem uma mão. No ônibus, no metrô, no supermercado, no taxi, na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha se sapê... ;-) E aí, marcada ou  condicionada, sei lá, pelas limitações e possibilidades que este acidente um dia me impôs e querendo provar o contrário e sair delas, mostrando que eu podia e conseguia tudo, SEMPRE negava. Ficava entre indignada e desentendida. Indignada por não sentir e não exibir, na minha percepção, as limitações enxergadas por todos e desentendida porque nunca notei nenhuma deficiência em mim ( e não noto até hoje ).

Senhoras no metrô já se levantaram para me dar lugar em assentos reservados. Metrô, ônibus e fila de táxi. Pessoas me questionando se preciso de ajuda em supermercados ou em suas saídas. Em bancos e aeroportos, me mostravam sempre a passagem sem fila. Nunca aceitei e nunca entendi. Mesmo quando, ainda de bengala, queria me mostrar capaz da fila, do ônibus, do metrô, das compras. Como disse, não enxergo minhas deficiências e queria que todos vissem que sim, eu posso sim!

Aí, passa tempo, passa hora, tic tac, tic tac e eu fico grávida.  Aí o quadro virou. Me flagrei pedindo assento prioritário, pedindo para não enfrentar fila, não ficar na fila de espera oficial de algum algo. Não enfrentava fila de cinema, fila de ingresso, fila de show, fila de abertura de exposição de arte, dobrando quarteirão, fila de check in, fila de banco, fila de nada. Aceitava ajuda em supermercados e sacolões; sessão de assento em ônibus , metrô e sala de espera de qualquer coisa. “Sou errada, sou errante, sempre na estrada, sempre distante”... ah, você não deveria, alguns diziam, mas EU não tava nem aí eu tava grávida, porra!

Aí um dia, coloquei as duas atitudes na minha frente e me perguntei porque tão diferente assim. E concluí que tudo se deve a uma questão matemática. Duas, na verdade! Uma subtração e uma soma.  Nas situações pós acidente, eu não era eu. Não era eu inteira. Me faltavam pedaços, partes, faculdades e habilidades. Não era uma soma de fatores inteiros, mas era, muitas vezes, de fatores negativos, uma subtração, talvez. E eu queria provar que não, que eu estava lá, que era eu, que eu fazia, que eu podia. Nas situações grávida, eu estava lá, era eu, inteira e ainda tinha mais de mim aqui dentro, outros pedaços outras razões. Eu me igualava a outras mulheres e queria fazer valer um direito que, em outros tempos, nem defenderia, não encontrando razão de ser para esta suposta fragilidade, esta condição preferencial. Uma soma de dois!

E aí com os dois pesos nas mãos, diante dos meus olhos, consciência e razão, entendi que, enquanto a preferência era devida em função de uma suposta deficiência ou inabilidade, a subtração; eu não queria, não aceitava não fazia, queria provar o contrário, mas quando foi em razão de uma soma, de um estado ou qualidade, característico da condição feminina, eu queria, eu reclamava eu buscava!

Eu queria era ser igual. Não às benesses que alguma deficiência que me fazia diferente e ‘especial’, portadora de necessidades e sim a todas as possíveis preferências e regalias que uma condição tão humanamente superior me trazia. A maternidade! Porque eu sou é eu mesma... igual, mas diferente!

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

eu sou é eu mesma



é... eu sou é eu mesma... mesmo!

Devem estar todos se perguntando, de novo? Pois... desde que a identidade se me tornou uma questão preponderante,  as definições em torno de minha personalidade colorem meus dias (e meus textos, portanto) de maneira exagerada.

Não sei até que ponto me redescobrir e me reconstruir não se tornou uma característica de meu arquétipo, meu self, que, segundo Young, está em mim desde sempre e nunca se perdeu.  Sei que soa a paradoxo total o questionamento acima, mas não, deixa eu explicar! Young dizia que o que somos vem definido nas entranhas e não se perde (palavras minhas) e estou dizendo aqui que o  meu eu ganhou novas características e definições depois de tantas cambalhotas do meu self.

Não, não estou contradizendo Young (não tenho esta ousadia). Com novas cores, novas leituras, sigo me reafirmando. É, na verdade, uma apropriação muito minha de um real mutante! A busca sempre me caracterizou de maneira muito forte. Buscar, querer entender, conhecer, saber, e buscar, buscar e buscar! E agora boa parte das minhas buscas estão em mim mesma! Direcionei o olhar para os buracos vazios de meu self, na minha memória e percepção, querendo reconstruí-lo.

E à medida que vou aprendendo de mim, do eu, do eu mesmo, vou reafirmando que sou eu sempre e muito! E o com esta novela de meus dias pós acidente, meu divisor de águas, traduzi a construção do self, da identidade, de Carl Young, no eu sou é eu mesmo, do Riobaldo, Guimarães Rosa.

E já virou meu playground!

O acontecido que vou ensaiando contar a todos foi, desta fez, engraçado, até! Guardo cá comigo um tom confessional, que faço bom uso. Não por falsidade, mas porque sou deveras dada a confissões. Sou dada a sinceridades a que as pessoas, normalmente, não se prestam! A amigos íntimos ou feitos íntimos e às bem querências de mon coeur qui bat. E dentro disto, uma frase que compõe, frequentemente, meu repertório é: “deixa eu te contar uma coisa”. Desembocando em uma confissão íntima, uma sinceridade auto-permitida em razão de uma intimidade percebida ou sentida, em uma gentileza a meu interlocutor ou em ponderações francas sobre ocorrências, lá ou cá!

Esta semana, trocando mensagens  Wapp, de conteúdo musical, por razões festivas, com uma amiga, engrenei a primeira para entrar em meu caminho confessional. O algoritmo do Whatsapp busca as palavras mais prováveis da sequência de suas sentenças para te sugerir. De acordo à norma padrão, às expressões idiomáticas ou ao seu uso pessoal, o que você mais usa, o que escreve sempre, etc. 

Comecei a escrever e, por acaso, observei, desde o princípio as sugestões do aplicativo. Muitas vezes, desligo e nem percebo. Mas neste dia, por acaso, observei tudo. Digitei a primeira palavras: ‘Deixa’ e o whatsapp me sugeriu ‘eu’, selecionei o eu e prontamente apareceu no campo de sugestões ‘te’. 'Te' selecionado e surgiu ‘contar’ no centro das sugestões. E depois ‘uma’ e depois ‘coisa’! ‘Deixa eu te contar uma coisa’, sentença construída pelos algoritmos do sistema!

Testei hoje de novo e tá lá... a frase prontinha que, traduzindo em meu dialeto particular, quer dizer: eu sou é eu mesma, sempre e muito!