Translate

sábado, 5 de fevereiro de 2022

ADAPTAR PARA SOBREVIVER

 

O contágio brutal e incessante da humanidade pelo Coronavírus, nos jogou em uma encruzilhada, quase sem saída. De adaptação ou adaptação.

Como se relacionar, como crescer e procriar, como conviver, com o distanciamento; ou pior, o isolamento, como fio condutor das relações da humanidade sobrevivente? Pois, vamos nos adaptando.

Sim, temos conseguido sobreviver à COVID 19 e suas mazelas respiratórias, mas a duríssimas penas, com restrições muito severas, que nos impõem um distanciamento que contraria, portanto, nossa continuidade, via reprodução.

O vírus, em seus reiterados ciclos, aprendemos com o tempo, sobrevive em cima de mutações intermináveis, com o surgimento e alastramento de novas cepas. E aí, quando nos iludíamos com um contágio em vias de moderação, nova variação ribonucleica do ‘monstro’ nos trancava de novo e de novo e de novo. Iludíamos, porque depois de tantos anos nos distanciando, não nos iludimos mais e aprendemos que não podemos sair de nosso círculo, feito casulo. Demorou, mas quando conseguimos nos condicionar assim, a mortalidade despencou, em todo o globo.

Seguimos, mundo inteiro, em grandes cidades, grandes metrópoles, mas acondicionados em nosso casulo familiar ou de convivência, milhares de comunidades autônomas formando cada sítio, de qualquer esfera urbana. Serviços remotos e sistemas delivery, que já eram uma reflexo indireto da era digital, proliferaram exponencialmente, naturalizando-se (e isolando-nos) em todo o globo.

Ainda acontecem desvios da curva, aqui e ali, humanos que somos, seres relacionais na essência. Ou também algum meio improvável de contágio que ocorre de ‘repentemente’ e se dissemina na velocidade da luz.

Diante de tantas mudanças tecnológicas e biológicas, através do tempo e através desta pandemia, Darwin se mostra mais atual que nunca. Adaptar para sobreviver fez-se lema, nosso, mas também do vírus. Mutante em sua essência, o Coronavírus segue se reconstruindo, RNA a RNA, de modo a desviar de nossa prevenção e seguir nos contagiando, seres hospedeiros.

E nós seguimos nos adaptando, distantes, mas próximos, comportamentos e costumes desconstruídos na essência e reconstruídos em cima de valores avessos à nossa humanidade. Tão longe, tão perto, ‘vida remota’, a todo vapor.

A esta altura do campeonato, corona game em campo por 15 anos, muitas variantes e cepas depois, a transmissibilidade tornou-se campo de extermínio.

No início, pensou-se em estabelecer punições para quem furasse as regras do jogo de isolamento, mas a pouca sobrevivência destes seres nos fez olhar para eles como fundamento de estudos de perfis, DNAs, tipo sanguíneo ou o que quer que seja que faça alguns mais imunes que outros. E esta foi a punição imposta.

Nossa adaptação tornou-se mote de estudos, em novas tentativas, reiteradas e cíclicas. O intercâmbio entre grupos conviventes se restringiu ao mínimo também ou quase se extinguiu. A máscara se tornou parte de nós a ponto de não nos conhecermos mais, sem ela. E não temos ocasião de nos vermos assim.

Não almoçamos juntos, não dormimos juntos, nem usamos o mesmo banheiro. Uma casa de 4 quartos tem 4 banheiros e o álcool, ah, este se tornou acessório essencial, item indispensável, a qualquer dia, qualquer hora, com qualquer um.

As populações mais carentes do mundo inteiro, sempre vítimas inevitáveis de qualquer cepa de acaso, viveram um processo de quase extermínio, uma vez que o isolamento e as restrições sanitárias se faziam luxo em seu campo. Mas aqui também, adaptar para sobreviver, e encontrou-se um jeito de lidar cotidianamente com as faltas, de modo a não fazê-las o tal campo de extermínio.

Nossa procriação, investindo na continuidade da espécie, até que (UM DIA) derrotemos este vírus, em todas as suas possíveis cepas, restringiu-se ao modo IN VITRO e as relações e trocas afetivas ao modo virtual ou remoto. As relações nunca foram tão íntimas, e a um só tempo, públicas, porque em rede.

O que você quer fazer, tem que falar, tem que escrever, para o outro sentir e dar o troco, na mesma moeda, fala ou escrita. As ações, por outro lado, nunca foram tão unilaterais. A masturbação ganhou posições e acessórios como nunca por ser a única opção relacional analógica, de todos, para todos.

Redes sociais de todas cores e todos os tipos, variando por sexualidade, idade, língua,  preferências sexuais, por geografia, por campo de interesse absorvem nossas relações, sem, no entanto, esgotá-las. Não se bastam, não nos bastam. Há sempre alguma coisa ausente.

Nos relacionamos virtual e remotamente, tanto no ofício quanto na amizade, familiaridade ou intimidade e procriamos, continuamos, IN VITRO. É a solidão buscando a solitude, sem alcançar, no entanto, porque humanos, demasiado humanos.

Nosso futuro, este está na adaptação completa da humanidade, vivendo-o inteiro na individualidade ou na derrota este vírus anti-social e egoísta.

Cena e horizonte inóspitos, fica uma frase: “Vida que te quero viva.” A saída deste imbróglio, vivos, um dia a gente acha!

 

 

 


domingo, 7 de fevereiro de 2021

CINEBIOGRAFIA DE GABO - INTERTEXTUALIDADE A TODO VAPOR


 

A memória permeou toda minha interação com a cinebiografia de Gabriel Garcia Marquez, meu Gabo desde há muito, com a intimidade definindo minha relação com o homem e sua obra. GABO – LA CREACIÓN de GABRIEL GARCIA MARQUES - todos os seus livros citados ou ali descritos revolveram lembranças e foi algo catártico, somehow, porque foram livros deveras significativos para mim, cada obra a seu tempo, no meu momento.

Apesar de ter começado meio do avesso, só que não, cada livro teve presença de fato nos meus dias. Comecei minha incursão por sua literatura com 100 ANOS DE SOLIDÃO, que me enveredou através da complexa genealogia dos Buendía, pelo realismo mágico e por muitas outras de suas obras. Do avesso, porque o tamanho e a dimensão da família guardam alguma complexidade para uma iniciante literária, junto a seu nascente estilo.

Me surpreendeu muito me lembrar de um trecho lido logo ao início, falando de um tempo em que ainda não havia palavras, sendo necessário apontar para designar.

Gostoso conhecer a origem da lendária MACONDO, que sempre teve um lugar especial em meu imaginário, guardando certa magia, origem do realismo fantástico em minha vida. Inspirado em Aracataca, vila diminuta nos Confins da Colômbia, onde passou sua infância, guarda as cores do estilo reverberado por ele.

Vida e obra do autor são descritas através de inúmeros depoimentos e trechos de uns 10 selecionados romances. Para compor GABO, personagem de si; outros personagens, agora de suas histórias, conversam ou narram intercaladamente, promovendo uma intertextualidade latina fantástica e saborosa. Para ele a literatura era algo que nunca podia estar apartado de suas relações e isto fica patente nos depoimentos.

Me causou particular (e surpreendente) boa impressão, os depoimentos de Clinton sobre o autor e sua obra. Depoimentos de largo portfólio de suas relações dão perfil largo ao protagonista porque visto de ângulos bem distintos.

O filme bem sucede em sua tentativa de entender a estranha história do menino nascido na pobreza em um vilarejo desconhecido dos confins da Colômbia e alçado a destaque inconteste da literatura mundial.

Entre suas idas e vindas da Colômbia, Europa, Nova York e México, em uma visita a  Aracataca, pela primeira vez, depois de deixar a cidade, teve a ciência da grandeza de sua história e valor de sua experiência. Nós também, GABO, através de sua literatura, os flashes de seus dias nos iluminam!

 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

ALGUÉM TEM QUE OUVIR O CORAÇÃO

 

Ele começa se (in)definindo entre argentino e brasileiro. Nem um, nem outro. Ou um e outro. Não o reconhecem como nativo lá, tampouco aqui. Ou o reconhecem lá e aqui também. Ele é BABENCO em ALGUÉM TEM QUE OUVIR O CORAÇÃO E DIZER: PAROU

É um doc metalinguisticamente autobiográfico, dá para entender a redundância? Deixa eu explicar. Pensa comigo: um doc falando de si, porque é sobre a vida de um cineasta. Então, o protagonista Hector Babenco, que é co-diretor (na prática) junto a sua esposa, Bárbara Paz, está sempre trazendo o cinema e o doc, em si mesmos, para o centro da trama.

Sei que tá muito confuso. Deixa eu tentar simplificar de novo. Doc sobre um cineasta é um doc sobre o cinema. Cinema sobre cinema, pela biografia de um cineasta, vida e obra.

E um dos sabores mais fortes desta produção é ver o quanto vida e obra aí se misturam. Onde  acaba uma e começa a outra? O cinema, a vontade de viver e o estar vivo são indissociáveis, segundo o próprio.

Ele diz sempre ter tido uma confiança ilimitada em sua capacidade de ter sorte e sobreviver e a gente tira a prova em função dos seguidos prazos-limite de vida que lhe são dados por médicos, em hospitais e até países diferentes. E ele segue por cerca de 30 – TRINTA – anos sobrevivendo.

Seus prazos não superavam nunca o ano corrente, então. Falavam de, no máximo, mais um ano. E ele passava e seguia vivo por vários seguintes.

A cumplicidade desenvolvida entre ele e Bárbara – dividindo o filme e dividindo a morte dele, é algo enorme. Ele dirige a própria morte. E a cena que ela faz de si mesma, sem ser spoiler, é catártica. Só.

Plasticamente, o filme é lindo, fotografia, P&B, seleção de imagens, tudo conspira junto aos significados que o filme exala explorando vida e obra do cara, por ele mesmo, consciente e poeticamente.

Lidando conscientemente com o avanço progressivo da doença e a perda de capacidades e funções, mexe com a gente no questionamento da extensão e da força do humano.

Ao passo que vídeo-registros de suas conversas com equipes de vários filmes de sua autoria, clássicos de nossa cinematografia, nos dão uma boa visão de seu papel na direção e de suas escolhas nos roteiros, na luz, nas falas, nos ângulos, nas cores, nas expressões, em TUDO.

Sei bem que estou hiperbólica, mas deixa ser, deixa estar, é o que sinto e aos meus olhos de agora o doc nos deixa a impressão de onipotência e onipresença de um diretor como ele. Representa uma espécie de Deus de um universo e tempo delimitados.

“Estou morrendo, mas meu coração não quer parar. Quer continuar.”

As cenas inicial e final, com imagens de Hong Kong, trilhadas por BREATHE – RADIOHEAD, me tocaram particularmente, apesar das críticas que li da desarticulação destas escolhas. Para mim, não, e o cinema, além da produção autoral e significados na origem, é cada um que o vê e todo seu hipertexto cognitivo. Ele faz menção a Hong Kong que, junto aos significados da música – Breathe, Exit Music for a Film -  diz tudo e mais, só no nome, para mim.

Ele morreu como viveu. Filmando, till the end – exit music for a film.

Em cartaz no YouTube e no Google Play

 

#cinema #documentario #documentariobiografico #hectorbabenco #babenco #barbarapaz #metaliguagem #autobiografico #radiohead #breath #exitmusicforafilm #cumplicidade #alguemtemqueouvirocoraçãoedizerparou


sábado, 23 de janeiro de 2021

metalinguagem - o elogio da escrita

Escrever é traduzir. Esta é a maneira que sempre enxerguei e trabalhei este processo. Encontrando as palavras de melhor encaixe às situações, aos acontecimentos, aos sentimentos, quero plantar em meus (pouquíssimos, mas especiais ;-) leitores exatamente o que a leitura me provoca (pretensão?).

A escrita, este processo meio, se fez, em mim, fim. Encontrar as palavras, os encaixes, a significação é um processo tão prazeroso que fiz dele profissão. A caça da palavra-encaixe, faço para mim e para os outros. O colocar-se no lugar do outro aí é essencial, porque quero provocar. Tenho que ler e sentir o que pretendo que o outro sinta, mesmo não sendo ele (mas Poli são várias! ;-).

Lendo, estes dias, Rosa Montero em seu “A Ridícula Ideia de Nunca mais te Ver”, cheguei à conclusão que a narrativa é para mim algo existencial. Sou a partir do que conto, escrevo.  E é um processo gostoso, o de se enxergar nas suas letras e palavras, nos fatos e atos propostos. Minha verossimilhança está ali, porque me reconheço e me proponho assim. E me satisfaz  ser assim. Quando me leio, é quase um gozo. Não porque ache foda, mas porque acho eu. Me encontro.

Me reconheço em cada vírgula e sou bem virgulada. E adjetiva e exclamativa. Não sou numérica nem verbal. Não me pontuo. Sempre reticente, quero dizer (e escrever) mais. E assim seguir me  descobrindo.

A gente muda todo dia, então sempre tem território novo a desbravar. E esta consciência e disposição são excitantes. Em uma escrita como a minha, o eu é sempre parte do processo. Olhando, analisando, sentindo! E é gostoso porque dependendo da extensão da entrega, você vive coisas díspares ou complementares ou inconciliáveis em frações de tempo.

Pode ser também um torpor. Se sua escrita é algo como expressiva, como dizem que é a minha (porque para expressar, tenho que sentir, eu!). E aí, sentindo, sou democrática. Viver e deixar viver, não é assim?  Pois... sentir e deixar sentir... ;-)

Em mim, é um processo catártico e, nesta medida, acredito, é que toco os outros. Descarregando e com os sentidos plenos e à flor da pele, provoco identidade e adesão (poucas).

Mas quando você se descreve e se reconhece ipsis literis, encaixa e-xa-ta-men-te no que pensou e sentiu, ainda disforme, é um torpor tão gostoso. Encontrar palavras para o que não tem descrição lógica é grande e personalíssimo.

Quero seguir os passos desta estrada. Se não der em nada, meus desejos sei de cor, e eles mudam todos os dias, como eu. 

Seja eu, seja eu,

Deixa que eu seja o céu

P.S.:  Para este post, me inspirou uma prosa me contestando a escolha dos locus de postagem para direcionar meu tesão pela escrita, feita tradução! Aqui, ali, em qualquer lugar... Meu texto quer nascer e sair de mim e ele, como eu, é profundamente adaptável e relacionável!




domingo, 27 de setembro de 2020

Viagem no tempo com Narciso em Férias

Revisitando país na ditadura militar pelas palavras de Caetano Veloso, sobre sua prisão durante o regime, documentário fala do Brasil atual nas entrelinhas

Dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil, Narciso em Férias, documentário com  Caetano Veloso, nos fala de sua prisão, junto a Gilberto Gil, revisitando o Brasil da ditadura militar, poucos dias após a decretação do AI5.

Fechados com ele sozinho, diante de um paredão cinza, ao longo de todo o doc, temos a exata ideia de como aqueles dois meses lhe pareceram a vida inteira, acordando e dormindo preso, e reduzindo-lhe, portanto, a ideia de vida. Alternando, somente, movimentos de câmera, a potência da história contada por Caetano, é revelada, variando entre ele ser seu foco absoluto, com o zoom fechado em seu rosto e retratando-o personagem das engrenagens arbitrárias de um sistema, pequeno entre as grandes muralhas circundantes.

Personagem e cenário únicos não reduzem a força de sua narrativa. Sem quaisquer imagens referenciais, históricas, jornalísticas, o doc não nos deixa escape. É Caetano, as arbitrariedades da ditadura e nós. E o doc ganha encaixe especial diante da situação política atual do país e do flerte da cúpula do poder com o militarismo e seus desmandos generalizados.

E a gente não pisca o olho. É denúncia, pelo fato histórico que descreve; é humor, pela maneira que ele lida com algumas lembranças e resgates, rindo de si e é poesia, porque é Caetano!

O documentário mostra a história e contexto de sua prisão imersos no Caetano que ele é e na poesia que carrega. Ele na cadeira, a câmera e os muros cinza ao redor. Li em alguma resenha ou reportagem uma alusão ao Processo de Kafka, em que Joseph K é levado e processado, desconhecendo as razões. E os muros cinza que o circundam ali, na entrevista, decoram mesmo o tom kafkiano da narrativa, e nos encerram no Processo, ao revelar que nem ele ou Gil foram informados, em momento algum, porque estavam sendo presos.

Narciso em Férias, o título do documentário, é o mesmo do capítulo de seu livro ‘Verdade Tropical’, no qual registra esta passagem de sua trajetória e seu depoimento todo é muito comovente. Ao lado das denúncias, têm força nas palavras de Caetano, experiência viva da história e o peso significativo da poesia que carrega. Caetano denuncia, sim, as atrocidades daquele período, mas também nos emociona, não só com o peso histórico de tudo, mas com seu olhar e sua passagem por esta história.

Momento especial de Narciso em Férias, o entrevistador passa a Caetano um exemplar da revista Manchete de então, estampando fotos da Terra, tiradas pela primeira missão lunar, que ele viu, quando estava preso. Tomado pela emoção, ele reconhece a foto: "É essa mesmo…", balbucia, de voz embargada e feições emocionadas, lembrando-se do momento em que viu “pela primeira vez, as tais fotografias”.

“Quando eu me encontrava preso
Na cela de uma cadeia
Foi que eu vi pela primeira vez
As tais fotografias
Em que apareces inteira
Porém lá não estavas nua
E sim, coberta de nuvens

Terra, terra
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?”

Pausa para respirar...

domingo, 13 de setembro de 2020

SENTIDOS QUE ME MOVEM

 Como nos sentidos e significados, na  prática, vou me aprendendo budista



Isto não vai ser um texto inteiro, com todas as letras. Será, sim, um excerto, com sua inteireza pontual. Sem qualquer pretensão de esgotar um assunto, uma emoção, uma ocorrência, quero lhes contar de outros resgates meus; estes agora, sensoriais.

Já andei comentando pelas páginas da Louca, e até por outros espaços digitais, do momento  intenso de resgates, da memória, que venho vivendo. É tudo tanto que sequer consigo explicar para dar uma  noção da intensidade dos meus dias, vivendo presente e vários fragmentos do passado, tudo ao mesmo tempo agora, junto e misturado!

Haja coração para lembrar, de uma vez, de 15 anos de amizades, amores, lugares, temperos, pratos, cozinhas, trabalhos, países, lugares, pessoas, shows, cantores, bandas, arte, affff, cansei, lembrei, chorei! Muito!

Os resgates da memória vieram junto àqueles da emoção, como já contei também por aqui. Tô chorando à beça e tá gostoso sentir as lágrimas correndo com apertos maiores ou menores no  peito... ou flores na boca! Venho repetindo desde sempre que não vou mudar ... eu sou é eu mesma e é muito gostoso resgatar um pedaço tão forte do eu mesma (ou do self, como queira, Jung!)!

Desta feita (!), os resgates que me movem, me assustam, mas deslumbram, são os resgates sensoriais. Meus sentidos foram todos afetados pelo trauma, cada qual à sua maneira.

No início não caminhava e hoje manco (eu não sei, mas é o que dizem). O lado direito do meu corpo ainda não tem a mesma coordenação ou sensibilidade. Apertavam uma minha mão e às vezes tinha a impressão de estarem apertando a outra. E ainda não sinto o toque de um lado da mesma forma que do outro (tato), mas já melhorou 90%, digamos. Fruto, creio, da hemiplegia que tive (paralização da metade do corpo – metade direita).  Tô nos últimos passos desta estrada e ela não vai dar em nada, ya lo sé!final deste caminho!

Também não ouvia bem de uma lado. Adivinha? O direito... mas hoje escuto o dobro dos dois lados... cuidado  comigo! ;-)

Não sentia cheiro de nada e pior, quando sentia não distinguia. Imagina: manjericão = cebolinha = gengibre. Perfume francês = boticário = colônia. Incêndio = gasolina = álcool.

No paladar, tinha uma variável diferente. Sempre senti o sabor de tudo MUITO BEM. Mas não distinguia nada, nunca. Minha teoria é que a conexão dos terminais do paladar e do cérebro se desfizeram. Assim, eu sentia e ‘identificava’ um sabor. “hummm, que delícia. Este sabor eu conheço muito. Já comi demais.” E afirmava: “gengibre”. “Não, manjericão”. Deu para entender o nível?

Parêntese necessário: imagina a dificuldade para uma pessoa que gosta tanto de cozinha, feito eu. Não distinguir aromas. Distinguir sabores, mas não saber, sem provar E LER O NOME, o que é o que! Tenho que ir provando e fazendo, TUDO. 

Na visão, durante muito tempo enxergava duplicado. Culpa do olho direito. Acredito (teoria minha) que em função da hemiplegia do lado direito. Mas isto passou há uns 4 ou 5 anos, não sei precisar.

Pois é, tato, visão e audição já tinham melhorado. Agora foram paladar e olfato, no mesmo dia, em momentos diferentes.

Almoçando uma tilápia toda cheia de condimentos, com pimentão vermelho e amarelo, cebola roxa, gengibre e pimenta do reino, distingui a pimenta do reino moída na hora, pela maneira que a senti intensa no prato. É uma diferença muito sutil para um paladar desconectado feito o meu, que sentia, mas não distinguia, NUNCA. Percebi, perguntei e confirmei. (como o seu uso não é hábito em casa, não a  moída na hora, minha percepção foi deveras autêntica). Senti o sabor e dei nome aos bois! Putzgrila!

Voltando para o quarto depois do almoço senti um cheiro de limpeza gigante. Um cheiro que não nada há 12 anos. Perguntei Fatinha e ela me contou que usou um produto de limpeza xyz, que ela  já tinha usado trocentas outras vezes pela casa  toda, incluindo meu quarto. Mas eu nunca senti nada nenhuma vez e ali senti, INSTANTANEAMENTE. Foi só pisar no quarto. Né pouco não, tá?!

Olfato e paladar, no mesmo dia,  de uma vez. Deixa eu contar para vocês. Tô virando budista! Aprendendo valores em uma escala toda diferente de tudo que aprendemos desde sempre.  Ando conseguindo olhar através das coisas e enxergar significados. Significados perdidos, ausência sentida e confirmada, significados reencontrados ou mais forte, reconstruídos. Poliana que sou, isto tem me feito muito bem.

E é tão gostoso aprender na pele, nas vísceras, os múltiplos sentidos da vida. E pouco a pouco, resgatá-los. Sai do corpo, de sua mecânica, passa pelos sentidos e sua orquestração conjunta e atinge os afetos e sentimentos porque são onde pousam nossos sentidos plenos e insaciáveis.

Hoje, me sinto inteira e sinto, muitas vezes, os sentidos sincrônicos, em uma sinestesia muito completa. Uma música tem sabor e aroma. A comida dança  em meu paladar, embalando a música que aquela memória também resgata. Tem som que toca a gente, revira o estômago e o coração. Eu ando de cara para as lembranças e os sentidos e os sinto todos junto a mim, todo o tempo.

Não mexe comigo, que eu não ando só!

(isto era para ser um excerto mas 37 minutos depois, olha o tamanho do texto que saiu – é o tanto que isto tudo tá me fazendo bem!)

 


terça-feira, 1 de setembro de 2020

Resgates em ebulição


O processo intenso de resgates hoje, 12 anos depois de tudo  tanto, me faz perguntar sempre quantas vidas eu vivi

Algumas coisas têm uma linha do tempo muito particular.  Com idas, vindas, estagnação, retrocesso, movimento retilíneo uniforme (quem lembra das aulas de física? ;-), picos, aceleração e outros modos, para os quais eu não tenho vocabulário.

Meu processo de recuperação teve e tem (ainda, 12 anos depois de tudo!) curvas muito alongadas, mas sempre do lado positivo. O que eu vou conseguindo, como vou conseguindo, os detalhes de minha superação, que eu, virginianamente contabilizo, são muito motivadores, apesar do tempo.

Mas bota meu nome aí nesta equação. Apesar de serem 12 anos, ser poliana (a minúscula, o significado) faz absoluta diferença para nesta equação só constarem parcelas (termo de uma soma) ou algumas vezes até multiplicadores, mas nunca subtraendos ou divisores.

O que venho lhes contar aqui é isto. Hoje (mas hoje, presente contínuo) experimento uma etapa multiplicadora, exponencial talvez, não sei dimensionar. E virginiana conteudista nas horas uteis e inúteis já tenho teorias orquestradas para explicar esta avalanche de significados que me invade... e entorpece, muitas vezes.

A primeira e certeira (porque não há dúvidas, neste campo) é a leitura. Há uns 4 ou 5 meses, voltei a ler livros, com fluência. 12 ANOS DEPOIS! Sim, eu já li alguns neste tempo todo, mas sem cadência e sempre anotando o que ia lendo, em uma espécie de resumo cola, para a próxima vez que pegasse no livro, no dia seguinte, saber em que universo eu estava passeando.

Lia 1 ou 2 livros por ano, em média, porque me era um exercício desgastante. Fora isto, vivia de jornal, links, notícias, às vezes contos. Assim, voltei a ler, no cotidiano, há uns 4 meses e já estou no 4º livro. E pirando. Minhas conexões e lembranças estão mais ágeis e eu não tomo notas em resumos ou paro na página 57 perguntando quem são estes, porque eles estão agindo assim, porque aconteceu aquilo. Sim, às vezes me perco, mas conectando sinapse a sinapse, alcanço o fio da meada. É um puta prazer reconquistado 12 anos depois de tudo, então, tem um valor muito pleno.

A segunda teoria é coisa minha. Com o traumatismo em grau grave (!) perdi a capacidade de me emocionar com qualquer coisa, como sempre fui EU (mesma!). No início, não me emocionava com nada, cinema, literatura, realidade, arte. Constatava, racionalmente, que, sim, aquilo era emocionante. E ponto. Nem uma lágrima, nem um lamento ou suspiro.

Há uns três anos, voltei a chorar. Feliz da vida, com esta resgate, às vezes forçava a barra. Mas não era fácil. Chorava em algumas ocasiões especiais. Meu algoritmo aqui ficou super seletivo e eu não me identificava ou enquadrava em nada.  Pouca gente, alguns fatos particulares, raríssimos pedaços de filmes ou livros (talvez porque não lia!).  Mas já estava aceitando este fato, sem drama (até porque não conseguiria chorar, não por esta razão!).

Há alguns poucos meses voltei a chorar com tudo, para tudo. Cinema, literatura, música, beleza, pessoas, notícia, ações, reações, realidade, lembranças (!!! aqui é celebração dupla, pela memória, em si e pelo choro com ela!) palavras, descobertas, meu filho.

E a minha teoria é que a emoção tem papel forte na cognição. Penso que há fatos que vou lembrar para sempre por causa da emoção neles embutida. Mas como eu estava sem emoção, não lembrava porque não sentia.

Sabe a tão falada hoje, memória afetiva? Pois, a minha estava desligada e agora é um torpor muito lindo e intenso. Lembrando coisas tão significativas que ficaram em off por 12 anos. Está tudo em meu estômago, flores revolvendo, tão visceralmente que é impossível descrever. Tudo tanto, suas músicas e palavras. É tanto resgate de uma vez que respirar fundo é meu modus natural.

Algumas coisas, quero trazer de volta ao meu presente, algumas estão bem na configuração de lembranças e outras ainda, quero fazer futuro.

Trago outras vidas comigo e mais que nunca vou cumprindo meu epíteto que Poli são várias!