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domingo, 7 de junho de 2026

Poli são várias

 Uma vez mais, esta frase se aplica a mim! Este projeto inteiro é policolor, polisignificados, polipessoas, politalentos, poliamigos, polirealização!


Começando uma série de registros sobre esta experiência maiúscula que vou vivendo, ao dia, fiquei um pouco perdida, por onde começar. Esta história, que tá virando filme, tem tantos lados, tantas abordagens, personagens, etapas e etc, que me perdi...



Não é só o meu olhar. Não é a história em mim. É a história em si e a história em um tanto de gente ao meu redor.

E aí, pensando assim, com estas caraminholas acima na cabeça, conclui que é por aí. Este é um bom começo. Começar pelas pessoas que viveram esta história, maaaas... aqui tem um porém! Meu primeiro registro deste projeto lindo que vou vivendo será das pessoas que vão vivendo esta história do filme! Não do acidente, em si. Mas do acidente feito filme!

Tem muita gente que é a mesma, no acidente e no filme. Minha mãe, meu pai, a fisioterapeuta Melissa, a fonoaudióloga Maira, meu filho Lourenço... O nome escolhido para o filme, ‘eu sou é eu mesma’, nem é por isto, mas fica uma sincronia legal.

Escolhi duas palavras para esta história de gente minha! Adesão e entrega. Foi muito gostoso sentir como as pessoas aderiram de coração e, através disto, sentir como este tropeço na minha vida afetou a cada uma delas.

Ouvir os relatos e perceber as trocas na interpretação foi um processo rico de algo que vou reconstruindo em mim, ainda, devagar e que aprendi a olhar como um degrau feito aprendizado.

Quero agradecer quem me ajudou na produção, Sandra, Laura, Gustavo, Mãe, Pai, José Luís, Marta, Lilia, Cida, Vinícius, Mariana, equipe HSJ inteira, na madrugada, inclusive! Cada ajuda, cada detalhe me ajudou a transformar esta história em filme! 



Meu elenco super expressivo e disposto a tudo! Mãe, pai, Leopoldo, Fafá, Henrique, Eddie, Melissa, Maira, Raoni, Gabriel, Lourenço e UM TANTÃO de figurante na cena do casamento!!! Muito massa, muito phoda! Adorei pessoal, muito!

E tem mais: JULI! Esta merece um agradecimento só dela! Todos merecem, mas meu blog não comporta texto com tantas linhas, eu acho! Juli, querida, obrigada pela entrega, pela dedicação e pelo amor feito filme!



É muito forte sentir esta resposta tão positiva e a entrega que ela significou! Aí, a gente entende a força dos laços que vai tecendo vida afora! Os nossos, e os que estão por trás de nós: da família, de nosso trabalho, daqueles por quem já passamos em ocasiões cotidianos e que, de alguma forma, deixamos um legado positivo.

Ah!!!! Fora de minha comunidade de origem tem um tantão de gratidão brotando! Gratidão com admiração!!!! Equipe IMA e profissionais parceiros!!!!!  Bia, Mariana, Mazza, Marcos, Rafael e toda equipe, do começo da história, também, Lulu, Márcia, mais um tantão de gente super!! Gratidão pelo  imenso projeto em si (phodástico) e em nós, ganhadores desta avalanche passando pelos trilhos Vitória a Minas!

GRATIDÃO TODOS

domingo, 31 de maio de 2026

EU, CINEASTA DE MIM



Tem tanto significado me atropelando, que preciso de reinauguar estas páginas, para compartilhar tudo que estou vendo, vivendo, sentindo com tudo tanto!

Roteirizar, produzir, dirigir e editar um filme, com uma equipe gigante me assessorando na contrução de mim mesma, cineasta, merece várias páginas, palavras a perder de vista e imagens lindas!

Para inaugurar esta fase dos conteúdos cinematográficos de mim mesma, vou repostar um texto que fiz para o jornal Rotha Cultural, de João Monlevade!

Publicado há cerca de um mês, quando eu estava no centro do furacão! Toda a equipe do Instituto Marlim Azul, promotor desta maravilha de projeto, rico como o quê, estava saindo daqui, depois de 5 dias me fazendo cineasta e realizando a filmagem daquele roteiro que me ajudaram a compor e a produzir!!

Segue o texto... extes dias, virão vários outros conteúdos sobre as etapas vividas, produzidas, aprendidas, filmadas, TUDO ENORME!

#repost ROTHA CULTURAL


EU, CINEASTA DE MIM

Roteirizando, produzindo, dirigindo e editando uma história minha, vivo o cinema na carne, ao dia

Já andei passeando aqui, pelas páginas do Rotha, contando da expectativa e da emoção de ter um texto selecionado para virar filme, pelo CURTA VITÓRIA MINAS, projeto do Instituto Marlim Azul, em Vitória, ES, patrocinado pela Vale via LEI ROUANET.

Contei esta parte, da expectativa que era, da emoção que se tornou e depois transbordou! A expectativa de ter uma história transformada em filme e mais, por você mesma, no meu caso, eu mesma(!), moradora dos trilhos da Estrada de Ferro Vitória a Minas, me sacudiu de um jeito que me falta vocabulário para descrever. Uma expectativa que era gigante e foi ultrapassada, no aprendizado e na realização.

Resgatando minha história e contextualizando os novos leitores, meu texto feito filme chama-se EU SOU É EU MESMA e conta do meu resgate de mim mesma depois de um acidente grave de sequelas cognitivas, afetando identidade, raciocínio, memória, tudo que guardamos na cabeça.

Neste momento agora quero falar do sentimento em ebulição em mim de realizar este projeto. Roteirista, produtora, diretora e agora editora. Tudo ao mesmo tempo ontem, hoje, amanhã. Com o apoio e o suporte de profissionais experientes, densos e super qualificados. E com poesia no olhar. E o suporte absoluto e integral do IMA!

Desde que participei da imersão na arte do cinema na sede do Instituto, em Vitória, ES, ainda não tive pausa para respirar. E está gostoso! O nível de entrega que o projeto pede me atrai. Não sou muito afeita a respirar pausadamente, gosto de ofegar. Por justa causa, assim, vale a vida!


Sair de nosso lugar de fala cotidiano e assumir outro, com suporte profissional, mas com responsabilidade de resposta como o projeto CURTA VITÓRIA MINAS pede (exige) é MA-RA- VI- LHO -SO!

Falei com duas pessoas imersas (imensas!) neste projeto, uma da ponta da produção e oferta, Beatriz Lindenberg, do Instituto Marlim Azul e outra da ponta da recepção (do prêmio, mais produção do filme!), Sandra Coelho, ganhadora feita cineasta, de Nova Era da última edição. Falei com as duas que meu olhar de hoje depois de viver este projeto imenso em cada detalhe é de felicidade de ter tido a indicação, a oportunidade e a qualidade necessárias (não vou tirar meu mérito do jogo!).

Outro ponto digno de pauta e de muito orgulho é da alta adesão de família e amigos ao projeto. Equipe de produção, atores, protagonistas e coadjuvantes, figurantes, gravações de dia inteiro, noite e madrugada, uffffa!!! Muito a agradecer! Compartilharemos do prêmio juntos, quando o filme chegar!

Ô Sorte! Convoco Wilson das Neves, baterista emblemático da história da MPB, para me ajudar na definição desta torrente de significado e aprendizado que passou por mim e me fez cineasta de mim mesma.

Pensei em descrever estes papeis que assumi; melhor, pensei em descrever a assunção destes papéis, mas me falta léxico para tanto aprendizado e trabalho feito realização. Acho que não dá para sentir por empatia, tem que experimentar.

Fica de olho no perfil do Instagram e no site do IMA para saber quando sai a próxima edição do CURTA VITÓRIA MINAS e integrar. Só sentindo. Lendo aqui, por melhor que me aplique em descrever, você não vai ter ideia! Não vai saber da missa a metade!

Enquanto a 5ª edição não vem (a 4ª tá rolando ainda, com força) vai vendo que tanto de projeto phoda que eles têm. Divirta-se fazendo boas conexões, enquanto o lobo não vem! 

E bom trabalho na próxima edição do projeto! Vou torcer para que você consiga me entender, na íntegra, na prática!

PICS by Mariana Lima, Instituto Marlin Azul

Poliana Guerra é administradora e jornalista, de Nova Era e contemplada para produzir o filme “Eu Sou é Eu Mesma”, do Instituto Marlin Azul, através do projeto projeto Curta Vitória a Minas IV, que transforma histórias de moradores em filmes.

quarta-feira, 18 de outubro de 2023

pedaços de mim

Eu sou assim, quem quiser gostar de mim, eu sou assim...

Virginiana e poliana, duas predestinações que não acredito, mas me definem e me defino. Não acredito, aliás, em predestinação nenhuma. Somos quem podemos ser, quem queremos, quem buscamos, quem construímos.

E comigo, a vida e os anos foram vindo, eu fui me construindo assim e fui gostando e seguindo ou desgostando e contornando. E quanto mais cética me torno, mais me acredito, me vejo e me aceito dentro destas duas quase esotéricas definições.

Hoje, acredito-as particularmente importantes para meu (permanente) processo de recuperação. E minha superação ao anunciado impossível, em meu entendimento e leitura, não é feita de situações e/ou atitudes admiráveis. Não. É feita de cotidiano, do (re)aprendizado diário. Rotina.

Ser poliana, por exemplo, apesar de sugerir uma boba alegre, implica na construção de nova/outra gramática para a vida. Significa também desenvolver um outro olhar. Qualquer coisa dita (ou feita, ou sabida) ruim que você consegue perceber outro(s) ângulo(s) e girar a cabeça. Importantes, as duas etapas. 

Ter um insight e segui-lo, instintivamente, mas motivadamente.

“Peraí, se você olhar por este lado, vai ver que...”

É que na roleta da vida, bom e ruim seguem sendo conjugados e você sempre pode olhar pelo outro lado.

É uma capacidade passível, pessoal e seguramente aberta ao desenvolvimento. É um aprendizado, até tornar-se natural.

E torna-se. Hoje, é parte de minha identidade. “Se não fossem os sorrisos, se não fossem as cores, não seria eu.

E não acabou. Tem mais um pouquinho! Para ser eu, tem ainda tudo que pode significar ser virginiana, mais, ser virginiana poliana.

Sim, metódica, disciplinada... mas bem humorada, fazendo piada de minhas falhas. E de minhas regras e métodos.

E me delicio com meus contornos e arestas para tudo tanto, com uma teoria pessoal que diz que o melhor de tanta regra é a infração. Sem culpa, sem pecado, sem vítimas. É simplesmente me permitir porque eu quero, porque eu posso.

Mas, não se engane. Até as infrações são regradas. Obedecem a um quando, com que frequência e como pre determinados e acordados com minha consciência.

E ser tanta regra, tanto objetivo e disciplina foi também, fundamental em minha reconstrução.

No Hospital Sarah Kubitschek, terceiro  que fiquei , já de posse de alguma razão, fiz a um dos médicos algumas perguntas sobre meu processo de recuperação e reabilitação (do quase nada que lembro dos hospitais)

Ele me respondeu que poderia ser tudo ou poderia ser nada. Que traumatismos cranianos eram uma incógnita na recuperação, muito mais um tão grave como o meu.  Eu estar ali já era uma puta vitória, com passos enormes e muitos ganhos (claro que ele não falou assim, é a paulistana que segue reverberando em mim, para sempre, quiçá!)

Pois, sim, decidi que não tinha vitória ainda e que minha recuperação seria tudo. Se ela não viesse inteira, eu a reconstruiria, peça por peça, virginianamente, com todas as regras, métodos, disciplina. E polianamente, que o humor nunca me faltaria.

E sigo assim, cotidianamente, para sempre em recuperação.

Esta é minha explicação, meu verso melhor ou único, meu tudo enchendo meu nada.

P.S. 1 - Este texto dever ser do ano seguinte pós acidente e eu, em pleno vácuo da memória, começo citando uma de minhas maiores paixões musicais - Paulinho da Viola

P.S. 2 - Fecho o texto citando Drummond, uma outra paixão (esta, literária) desde sempre, que retornou forte para meus dias, recentemente...

Sempre em (re) construção, EU SOU É EU MESMA!

 

domingo, 25 de junho de 2023

frio ou calor, qual a sua 'praia'?

 Frio descompensado destes dias de inverno gera caloroso (não calorento) debate, que pede mais palco

Sou friorenta. Muito! Mas prefiro o frio ao calor, sem dúvida ou hesitação, definitivamente. Não gosto de sentir frio, mas aí são outros 500.

Dia destes, diante de um frio cortando até a alma, incorporando as sensações provocadas pelo tempo, engatilhamos rico debate, na cozinha da Cooperativa onde trabalhamos, eu e Sarah, colega cooperada, sobre as vantagens do frio, ante o calor e vice versa.

Argumentos ‘furiosos’ apresentados de lado a lado, ela verão e eu inverno, ficamos na promessa de estender invencivelmente (as duas) este debate, já que o tempo do café não era suficiente para nossos irrefutáveis argumentos, eu na lareira e ela na praia.

Tenho uma teoria vencedora, que tem adesão de todos que a ouvem. Ficar quentinha no frio é muito melhor que ficar fresca no calor por diversas razões e eu listo algumas aqui.

Escrevo esta dissertação direcionada a ti, Sarah, para você aderir irremediavelmente aos meus argumentos vencedores. Você vai ver que eles são irrefutáveis. Seu trabalho, então, é construir os teus, uma vez que, derrubar os meus, está fora de questão.

Vamos às listas de cada cenário, cada condição, cada clima. Primeiro a lista vencedora – o que é bom no inverno!

1 – A lista de coisas mais prazerosas de fazer no frio é extensa e quase total, porque é complexo achar coisas boas de se fazer no calor. Vamos a elas.

 – Comida. Não importa se comida leve ou pesada, falo aqui do ato de comer. No inverno, o ato de comer ganha um espaço especial em nossas programações sociais e românticas.

– Trabalhar. Sim, a gente fica mais produtivo, rende mais, sem suor, sem desconforto, sem ficar abaixando a temperatura do ar-condicionado toda hora.

– Estudar ou ler, sentado ou deitado, lazer ou com compromisso de prova avaliando. É gostoso ler no frio. Com um capuccino, faz o cenário ideal. Parar para ler no calor me soa melado entre as pernas e nos vãos dos braços, como um esforço para ler.

– Ver filmes, na tv, Netflix, TV à cabo ou cinema. Sem sombra de dúvidas e com cobertas ou cachecol, acompanhando a pipoca (até ela se encaixa melhor no inverno).

– Cozinhar (que para mim é lazer) também não tem questionamento. Ficar de pé, picando, separando, esquentando, mexendo, ralando, provando, assando, fritando, suando? Com o frio, os aromas ficam todos ricos e experimentais e o vinho acompanha lindamente, com os exercícios do ato em si, mantendo a boa temperatura do corpo e a endorfina alta!

– Limpar a casa, a cozinha, o banheiro... sim, porque de afazeres cotidianos também é feita a vida... No calor, só é bom quando tá rolando uma contabilidade forte de gasto calórico e, mesmo assim, se você for muito poliana, de ficar procurando o lado bom das coisas.

– Falando em gasto calórico, treinar... na academia, em casa, na caminhada... no calor, só é boa a parte de chegar em casa e tomar uma ducha com chuveiro desligado! No inverno, é bom tudo, aquecimento, esforço de peso, esforço aeróbico. Endorfina em forma de calor no corpo em tempo gelo austral.

– Viajar. Com malas, bagagens, mapas, roteiros, programações, aprendendo do trânsito e roteiros locais, aprendendo do transporte local, visitando museus, palácios, programas culturais, conhecendo a culinária... vixi, 8 pontos para o inverno e 3 para o verão... Porque viajar não é 10, é 11!

- Dormir. Alguém ousa comparar dormir no frio e dormir no calor? Dormir enrolado e enroscadinho no frio não tem comparação com dormir estatelado e aberto na cama, sem encostar uma parte do corpo em outra ou sem encostar em quem dorme com você para não melar. Isto, falando de dormir, porque falando de transar, o gosto é subjetivo (e peculiar, diga-se de passagem).

– O tema transa no calor me leva para o lado mais romântico desta história. Namorar. No frio ou no calor? Responde, mas responde para si. Você tem coragem de dizer para si que prefere namorar no calor? Abraçado suado, com as camisetas levemente molhadas (ou muito) embaixo do braço, com um cecê nele ou nela ou nos dois... romântico... aff!


Pronto, enchi as duas mãos...

 Agora vamos à lista do calor:

– Nadar ou se molhar, corpo inteiro. Na piscina, no mar, na lagoa, na cachoeira, no rio, tudo, tudo é melhor, com força, no verão, no calor. Mas quantas vezes por semana você se molha assim, sem contar com o chuveiro desligado, do banho de mangueira ou no tanque.

– Sentar num buteco à sombra, com mesas na calçada, uma brisa boa, sem melação e sem fila... aqui também, com que frequência cotidiana você pode fazer isto? E qual o seu controle sobre as outras variáveis que compõem a cena?

–Tomar aquela ducha desligada, aberta no máximo, depois de uma corrida (único ponto que me ganha!)

– Ficar no ar condicionado pleno (isto é programa?)

– Alguém tem mais algum argumento? Você, Sarah, tem alguma carta na manga?

 

 

sábado, 29 de abril de 2023

Labores e Sabores cotidianos


Você tem um hobby? Pois é, eu custei a achar os meus... por uma falta de atenção, talvez... mas os tenho... e são muito fortes em mim! 

Numa prosa gostosa, daquelas de cozinha, com gente afinada com a gente, rolou a pauta de labores manuais, no campo do lazer e do prazer.

Fiquei pensando e não encontrei nada, nem plantio, nem artesanato, nem artes plásticas, nem instrumentos musicais. E fiquei desapontada comigo mesma. Como assim, uma pessoa tão afeita a prazeres artísticos, fora dos afazeres cotidianos, que terminam por produzir resultado no espírito não ter um rito cotidiano? Como assim, eu não ter nenhuma atividade extra oficial que entregue prazer.

Ensimesmada, não me entreguei e fiquei repassando meus afazeres e prazeres diários, um a um. Um dia teve o crochê, é verdade, mas vão aí décadas que nem encosto em uma agulha ou um novelo de linha. Música, só o ouvido, a pesquisa, os mp3, rar e bits correspondentes. Artesanato, nem de forminhas de brinquedo no barro, com meu filho. Arte, os muitos museus que visito e admiro e ponto, cabô.

Fiquei passando e repassando, na cabeça, uma lista de possibilidades até que encontrei algumas, e pensei que são mesmo o que melhor me define!

 

A cozinha. Não a cozinha do dia a dia, mas a cozinha social, aquela da hora do prazer e para amigos do coração, que pedem um temperinho na medida pessoal. A cozinha, com toque personalíssimo das mãos e dos sentidos ativos e atuantes, a da alquimia de sabores experimentais, a todo vapor.

 

- O treino cotidiano do corpo, para configurar a mente no modo endorfina. Me faz um bem incomum e muito imediato! É treinar, pá, pum, meu humor está 100%. Isto, cotidianamente, há mais de 20 anos. Agora, então, depois de perder movimentos e sensibilidade, em parte do corpo, por um tempo, enxergo no campo da arte,  posições e alongamentos e, sim, os pesos todos (bem pesados!)!

 

- As 'escrivivências'. Escrever tem uma conotação muito intensa para mim. São significados pessoais nascentes, a todo vapor. Gerá-los e entregar significados tem um valor gigante!  Os contornos que desenham minhas mãos falam da intensidade com que vivo e me entrego às experiências, mesmo às dos outros e as inventadas. Falam de sua origem, do que trazem de minha história e vivências pessoais. Todas ganham carga emotiva, passando por minha criação literária e meus contornos motores.

 Então, taí, me encontrei! 

Meus labores e sabores manuais cotidianos falam de muito de mim e bem desenham minha personalidade.

Este texto, fruto de um prazer cotidiano (no tema e na prática), nasceu em uma prosa no cafezinho do trabalho! Reverto, assim, a pergunta! Você tem um hobby, Eddie?


sábado, 8 de abril de 2023

Filme Marte 1 mostra universo dentro de casa

 


Os conflitos dos entes de uma família, iguais, mas diferentes, cativam, via identidade

Flashes do contexto de cada ente familiar, ao princípio, já me fisgaram por mostrar a inteireza da história de uma família negra protagonizando, reunindo diferentes personalidades e rotinas, dignas, humanas escapando aos clichês das narrativas que delegam aos negros papeis secundários, criminosos ou estereotipados.

Nos papeis principais, a família inteira, pai, mãe, filho e filha, e seus diferentes fragmentos de sentido compõem a narrativa.

Um roteiro polissêmico. Cada qual com sua frustração, contradição, dor e delicia. Todos enfrentando as dificuldades de uma família negra, classe média baixa, em um Brasil em tempos de Bolsonaro, o que a televisão da família não nos deixa escapar e confrontar com os sentidos que emergem de tal cenário sociopolítico.

O filho quer ser um astrofísico, a filha é uma .... homossexual (não me lembro de indicarem a profissão ou qualquer outra característica identitária), a mãe uma doméstica e o pai um porteiro. Daí se irradiam múltiplos conflitos e sentidos, que bem conversam entre si. E conosco.

A trilha sonora reflete bem esta polissemia e também dialoga com o filme, personagens e sua trama pessoal. Indo do funk ao samba, os personagens traçam sua história particular na medida de seus sonhos, dos mais terrenos e cotidianos aos intergalácticos.

Como a mãe diarista, que precisa de mais clientes; a filha homossexual que quer sair de casa e morar com sua amante ou o pai que sonha com uma carreira futebolística estelar para seu pequeno, que sonha, este, visitar outro planeta, através da missão espacial, Marte 1!

Este filme sensível e polissêmico me conectou imediatamente a uma frase que li por aí: existe um universo em cada casa. Sua abordagem de relações familiares em sua inteireza nos posiciona como que defronte a um espelho, apesar de todas as diferenças ali retratadas.  É uma família, tão peculiar quanto a nossa, quanto todas. Igual, mas (muito) diferente.

Merece nota a cumplicidade dos irmãos, dentro de seus infinitos particulares. Nada parecidos, em nada, um se identifica na diferença do outro e ponto. E isto é suficiente para se entenderem plenamente.

Obstáculos, dilemas e travessias de relações humanas guardam uma dignidade muito forte pela simples identidade. Todos temos conflitos internos (e externos) e tendemos a nos reconhecer na dificuldade do outro.

É tão bom sentir que a gente cabe no mundo, fala sério?

Marte 1, com direção de Gabriel Martins, teve sua estreia internacional no Festival de Sundance e foi o filme brasileiro escolhido para concorrer à vaga nos candidatos ao Oscar de Filme Estrangeiro. Mas não rolou. Merecido era, quer dizer, é, sobretudo frente à abordagem de tantas questões sociais prementes no Brasil, mas, e os outros candidatos?


#marte1 #cinema #polissemia #sundance #oscar


sábado, 5 de fevereiro de 2022

ADAPTAR PARA SOBREVIVER

 

O contágio brutal e incessante da humanidade pelo Coronavírus, nos jogou em uma encruzilhada, quase sem saída. De adaptação ou adaptação.

Como se relacionar, como crescer e procriar, como conviver, com o distanciamento; ou pior, o isolamento, como fio condutor das relações da humanidade sobrevivente? Pois, vamos nos adaptando.

Sim, temos conseguido sobreviver à COVID 19 e suas mazelas respiratórias, mas a duríssimas penas, com restrições muito severas, que nos impõem um distanciamento que contraria, portanto, nossa continuidade, via reprodução.

O vírus, em seus reiterados ciclos, aprendemos com o tempo, sobrevive em cima de mutações intermináveis, com o surgimento e alastramento de novas cepas. E aí, quando nos iludíamos com um contágio em vias de moderação, nova variação ribonucleica do ‘monstro’ nos trancava de novo e de novo e de novo. Iludíamos, porque depois de tantos anos nos distanciando, não nos iludimos mais e aprendemos que não podemos sair de nosso círculo, feito casulo. Demorou, mas quando conseguimos nos condicionar assim, a mortalidade despencou, em todo o globo.

Seguimos, mundo inteiro, em grandes cidades, grandes metrópoles, mas acondicionados em nosso casulo familiar ou de convivência, milhares de comunidades autônomas formando cada sítio, de qualquer esfera urbana. Serviços remotos e sistemas delivery, que já eram uma reflexo indireto da era digital, proliferaram exponencialmente, naturalizando-se (e isolando-nos) em todo o globo.

Ainda acontecem desvios da curva, aqui e ali, humanos que somos, seres relacionais na essência. Ou também algum meio improvável de contágio que ocorre de ‘repentemente’ e se dissemina na velocidade da luz.

Diante de tantas mudanças tecnológicas e biológicas, através do tempo e através desta pandemia, Darwin se mostra mais atual que nunca. Adaptar para sobreviver fez-se lema, nosso, mas também do vírus. Mutante em sua essência, o Coronavírus segue se reconstruindo, RNA a RNA, de modo a desviar de nossa prevenção e seguir nos contagiando, seres hospedeiros.

E nós seguimos nos adaptando, distantes, mas próximos, comportamentos e costumes desconstruídos na essência e reconstruídos em cima de valores avessos à nossa humanidade. Tão longe, tão perto, ‘vida remota’, a todo vapor.

A esta altura do campeonato, corona game em campo por 15 anos, muitas variantes e cepas depois, a transmissibilidade tornou-se campo de extermínio.

No início, pensou-se em estabelecer punições para quem furasse as regras do jogo de isolamento, mas a pouca sobrevivência destes seres nos fez olhar para eles como fundamento de estudos de perfis, DNAs, tipo sanguíneo ou o que quer que seja que faça alguns mais imunes que outros. E esta foi a punição imposta.

Nossa adaptação tornou-se mote de estudos, em novas tentativas, reiteradas e cíclicas. O intercâmbio entre grupos conviventes se restringiu ao mínimo também ou quase se extinguiu. A máscara se tornou parte de nós a ponto de não nos conhecermos mais, sem ela. E não temos ocasião de nos vermos assim.

Não almoçamos juntos, não dormimos juntos, nem usamos o mesmo banheiro. Uma casa de 4 quartos tem 4 banheiros e o álcool, ah, este se tornou acessório essencial, item indispensável, a qualquer dia, qualquer hora, com qualquer um.

As populações mais carentes do mundo inteiro, sempre vítimas inevitáveis de qualquer cepa de acaso, viveram um processo de quase extermínio, uma vez que o isolamento e as restrições sanitárias se faziam luxo em seu campo. Mas aqui também, adaptar para sobreviver, e encontrou-se um jeito de lidar cotidianamente com as faltas, de modo a não fazê-las o tal campo de extermínio.

Nossa procriação, investindo na continuidade da espécie, até que (UM DIA) derrotemos este vírus, em todas as suas possíveis cepas, restringiu-se ao modo IN VITRO e as relações e trocas afetivas ao modo virtual ou remoto. As relações nunca foram tão íntimas, e a um só tempo, públicas, porque em rede.

O que você quer fazer, tem que falar, tem que escrever, para o outro sentir e dar o troco, na mesma moeda, fala ou escrita. As ações, por outro lado, nunca foram tão unilaterais. A masturbação ganhou posições e acessórios como nunca por ser a única opção relacional analógica, de todos, para todos.

Redes sociais de todas cores e todos os tipos, variando por sexualidade, idade, língua,  preferências sexuais, por geografia, por campo de interesse absorvem nossas relações, sem, no entanto, esgotá-las. Não se bastam, não nos bastam. Há sempre alguma coisa ausente.

Nos relacionamos virtual e remotamente, tanto no ofício quanto na amizade, familiaridade ou intimidade e procriamos, continuamos, IN VITRO. É a solidão buscando a solitude, sem alcançar, no entanto, porque humanos, demasiado humanos.

Nosso futuro, este está na adaptação completa da humanidade, vivendo-o inteiro na individualidade ou na derrota este vírus anti-social e egoísta.

Cena e horizonte inóspitos, fica uma frase: “Vida que te quero viva.” A saída deste imbróglio, vivos, um dia a gente acha!

 

 

 


domingo, 7 de fevereiro de 2021

CINEBIOGRAFIA DE GABO - INTERTEXTUALIDADE A TODO VAPOR


 

A memória permeou toda minha interação com a cinebiografia de Gabriel Garcia Marquez, meu Gabo desde há muito, com a intimidade definindo minha relação com o homem e sua obra. GABO – LA CREACIÓN de GABRIEL GARCIA MARQUES - todos os seus livros citados ou ali descritos revolveram lembranças e foi algo catártico, somehow, porque foram livros deveras significativos para mim, cada obra a seu tempo, no meu momento.

Apesar de ter começado meio do avesso, só que não, cada livro teve presença de fato nos meus dias. Comecei minha incursão por sua literatura com 100 ANOS DE SOLIDÃO, que me enveredou através da complexa genealogia dos Buendía, pelo realismo mágico e por muitas outras de suas obras. Do avesso, porque o tamanho e a dimensão da família guardam alguma complexidade para uma iniciante literária, junto a seu nascente estilo.

Me surpreendeu muito me lembrar de um trecho lido logo ao início, falando de um tempo em que ainda não havia palavras, sendo necessário apontar para designar.

Gostoso conhecer a origem da lendária MACONDO, que sempre teve um lugar especial em meu imaginário, guardando certa magia, origem do realismo fantástico em minha vida. Inspirado em Aracataca, vila diminuta nos Confins da Colômbia, onde passou sua infância, guarda as cores do estilo reverberado por ele.

Vida e obra do autor são descritas através de inúmeros depoimentos e trechos de uns 10 selecionados romances. Para compor GABO, personagem de si; outros personagens, agora de suas histórias, conversam ou narram intercaladamente, promovendo uma intertextualidade latina fantástica e saborosa. Para ele a literatura era algo que nunca podia estar apartado de suas relações e isto fica patente nos depoimentos.

Me causou particular (e surpreendente) boa impressão, os depoimentos de Clinton sobre o autor e sua obra. Depoimentos de largo portfólio de suas relações dão perfil largo ao protagonista porque visto de ângulos bem distintos.

O filme bem sucede em sua tentativa de entender a estranha história do menino nascido na pobreza em um vilarejo desconhecido dos confins da Colômbia e alçado a destaque inconteste da literatura mundial.

Entre suas idas e vindas da Colômbia, Europa, Nova York e México, em uma visita a  Aracataca, pela primeira vez, depois de deixar a cidade, teve a ciência da grandeza de sua história e valor de sua experiência. Nós também, GABO, através de sua literatura, os flashes de seus dias nos iluminam!

 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

ALGUÉM TEM QUE OUVIR O CORAÇÃO

 

Ele começa se (in)definindo entre argentino e brasileiro. Nem um, nem outro. Ou um e outro. Não o reconhecem como nativo lá, tampouco aqui. Ou o reconhecem lá e aqui também. Ele é BABENCO em ALGUÉM TEM QUE OUVIR O CORAÇÃO E DIZER: PAROU

É um doc metalinguisticamente autobiográfico, dá para entender a redundância? Deixa eu explicar. Pensa comigo: um doc falando de si, porque é sobre a vida de um cineasta. Então, o protagonista Hector Babenco, que é co-diretor (na prática) junto a sua esposa, Bárbara Paz, está sempre trazendo o cinema e o doc, em si mesmos, para o centro da trama.

Sei que tá muito confuso. Deixa eu tentar simplificar de novo. Doc sobre um cineasta é um doc sobre o cinema. Cinema sobre cinema, pela biografia de um cineasta, vida e obra.

E um dos sabores mais fortes desta produção é ver o quanto vida e obra aí se misturam. Onde  acaba uma e começa a outra? O cinema, a vontade de viver e o estar vivo são indissociáveis, segundo o próprio.

Ele diz sempre ter tido uma confiança ilimitada em sua capacidade de ter sorte e sobreviver e a gente tira a prova em função dos seguidos prazos-limite de vida que lhe são dados por médicos, em hospitais e até países diferentes. E ele segue por cerca de 30 – TRINTA – anos sobrevivendo.

Seus prazos não superavam nunca o ano corrente, então. Falavam de, no máximo, mais um ano. E ele passava e seguia vivo por vários seguintes.

A cumplicidade desenvolvida entre ele e Bárbara – dividindo o filme e dividindo a morte dele, é algo enorme. Ele dirige a própria morte. E a cena que ela faz de si mesma, sem ser spoiler, é catártica. Só.

Plasticamente, o filme é lindo, fotografia, P&B, seleção de imagens, tudo conspira junto aos significados que o filme exala explorando vida e obra do cara, por ele mesmo, consciente e poeticamente.

Lidando conscientemente com o avanço progressivo da doença e a perda de capacidades e funções, mexe com a gente no questionamento da extensão e da força do humano.

Ao passo que vídeo-registros de suas conversas com equipes de vários filmes de sua autoria, clássicos de nossa cinematografia, nos dão uma boa visão de seu papel na direção e de suas escolhas nos roteiros, na luz, nas falas, nos ângulos, nas cores, nas expressões, em TUDO.

Sei bem que estou hiperbólica, mas deixa ser, deixa estar, é o que sinto e aos meus olhos de agora o doc nos deixa a impressão de onipotência e onipresença de um diretor como ele. Representa uma espécie de Deus de um universo e tempo delimitados.

“Estou morrendo, mas meu coração não quer parar. Quer continuar.”

As cenas inicial e final, com imagens de Hong Kong, trilhadas por BREATHE – RADIOHEAD, me tocaram particularmente, apesar das críticas que li da desarticulação destas escolhas. Para mim, não, e o cinema, além da produção autoral e significados na origem, é cada um que o vê e todo seu hipertexto cognitivo. Ele faz menção a Hong Kong que, junto aos significados da música – Breathe, Exit Music for a Film -  diz tudo e mais, só no nome, para mim.

Ele morreu como viveu. Filmando, till the end – exit music for a film.

Em cartaz no YouTube e no Google Play

 

#cinema #documentario #documentariobiografico #hectorbabenco #babenco #barbarapaz #metaliguagem #autobiografico #radiohead #breath #exitmusicforafilm #cumplicidade #alguemtemqueouvirocoraçãoedizerparou


sábado, 23 de janeiro de 2021

metalinguagem - o elogio da escrita

Escrever é traduzir. Esta é a maneira que sempre enxerguei e trabalhei este processo. Encontrando as palavras de melhor encaixe às situações, aos acontecimentos, aos sentimentos, quero plantar em meus (pouquíssimos, mas especiais ;-) leitores exatamente o que a leitura me provoca (pretensão?).

A escrita, este processo meio, se fez, em mim, fim. Encontrar as palavras, os encaixes, a significação é um processo tão prazeroso que fiz dele profissão. A caça da palavra-encaixe, faço para mim e para os outros. O colocar-se no lugar do outro aí é essencial, porque quero provocar. Tenho que ler e sentir o que pretendo que o outro sinta, mesmo não sendo ele (mas Poli são várias! ;-).

Lendo, estes dias, Rosa Montero em seu “A Ridícula Ideia de Nunca mais te Ver”, cheguei à conclusão que a narrativa é para mim algo existencial. Sou a partir do que conto, escrevo.  E é um processo gostoso, o de se enxergar nas suas letras e palavras, nos fatos e atos propostos. Minha verossimilhança está ali, porque me reconheço e me proponho assim. E me satisfaz  ser assim. Quando me leio, é quase um gozo. Não porque ache foda, mas porque acho eu. Me encontro.

Me reconheço em cada vírgula e sou bem virgulada. E adjetiva e exclamativa. Não sou numérica nem verbal. Não me pontuo. Sempre reticente, quero dizer (e escrever) mais. E assim seguir me  descobrindo.

A gente muda todo dia, então sempre tem território novo a desbravar. E esta consciência e disposição são excitantes. Em uma escrita como a minha, o eu é sempre parte do processo. Olhando, analisando, sentindo! E é gostoso porque dependendo da extensão da entrega, você vive coisas díspares ou complementares ou inconciliáveis em frações de tempo.

Pode ser também um torpor. Se sua escrita é algo como expressiva, como dizem que é a minha (porque para expressar, tenho que sentir, eu!). E aí, sentindo, sou democrática. Viver e deixar viver, não é assim?  Pois... sentir e deixar sentir... ;-)

Em mim, é um processo catártico e, nesta medida, acredito, é que toco os outros. Descarregando e com os sentidos plenos e à flor da pele, provoco identidade e adesão (poucas).

Mas quando você se descreve e se reconhece ipsis literis, encaixa e-xa-ta-men-te no que pensou e sentiu, ainda disforme, é um torpor tão gostoso. Encontrar palavras para o que não tem descrição lógica é grande e personalíssimo.

Quero seguir os passos desta estrada. Se não der em nada, meus desejos sei de cor, e eles mudam todos os dias, como eu. 

Seja eu, seja eu,

Deixa que eu seja o céu

P.S.:  Para este post, me inspirou uma prosa me contestando a escolha dos locus de postagem para direcionar meu tesão pela escrita, feita tradução! Aqui, ali, em qualquer lugar... Meu texto quer nascer e sair de mim e ele, como eu, é profundamente adaptável e relacionável!




domingo, 27 de setembro de 2020

Viagem no tempo com Narciso em Férias

Revisitando país na ditadura militar pelas palavras de Caetano Veloso, sobre sua prisão durante o regime, documentário fala do Brasil atual nas entrelinhas

Dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil, Narciso em Férias, documentário com  Caetano Veloso, nos fala de sua prisão, junto a Gilberto Gil, revisitando o Brasil da ditadura militar, poucos dias após a decretação do AI5.

Fechados com ele sozinho, diante de um paredão cinza, ao longo de todo o doc, temos a exata ideia de como aqueles dois meses lhe pareceram a vida inteira, acordando e dormindo preso, e reduzindo-lhe, portanto, a ideia de vida. Alternando, somente, movimentos de câmera, a potência da história contada por Caetano, é revelada, variando entre ele ser seu foco absoluto, com o zoom fechado em seu rosto e retratando-o personagem das engrenagens arbitrárias de um sistema, pequeno entre as grandes muralhas circundantes.

Personagem e cenário únicos não reduzem a força de sua narrativa. Sem quaisquer imagens referenciais, históricas, jornalísticas, o doc não nos deixa escape. É Caetano, as arbitrariedades da ditadura e nós. E o doc ganha encaixe especial diante da situação política atual do país e do flerte da cúpula do poder com o militarismo e seus desmandos generalizados.

E a gente não pisca o olho. É denúncia, pelo fato histórico que descreve; é humor, pela maneira que ele lida com algumas lembranças e resgates, rindo de si e é poesia, porque é Caetano!

O documentário mostra a história e contexto de sua prisão imersos no Caetano que ele é e na poesia que carrega. Ele na cadeira, a câmera e os muros cinza ao redor. Li em alguma resenha ou reportagem uma alusão ao Processo de Kafka, em que Joseph K é levado e processado, desconhecendo as razões. E os muros cinza que o circundam ali, na entrevista, decoram mesmo o tom kafkiano da narrativa, e nos encerram no Processo, ao revelar que nem ele ou Gil foram informados, em momento algum, porque estavam sendo presos.

Narciso em Férias, o título do documentário, é o mesmo do capítulo de seu livro ‘Verdade Tropical’, no qual registra esta passagem de sua trajetória e seu depoimento todo é muito comovente. Ao lado das denúncias, têm força nas palavras de Caetano, experiência viva da história e o peso significativo da poesia que carrega. Caetano denuncia, sim, as atrocidades daquele período, mas também nos emociona, não só com o peso histórico de tudo, mas com seu olhar e sua passagem por esta história.

Momento especial de Narciso em Férias, o entrevistador passa a Caetano um exemplar da revista Manchete de então, estampando fotos da Terra, tiradas pela primeira missão lunar, que ele viu, quando estava preso. Tomado pela emoção, ele reconhece a foto: "É essa mesmo…", balbucia, de voz embargada e feições emocionadas, lembrando-se do momento em que viu “pela primeira vez, as tais fotografias”.

“Quando eu me encontrava preso
Na cela de uma cadeia
Foi que eu vi pela primeira vez
As tais fotografias
Em que apareces inteira
Porém lá não estavas nua
E sim, coberta de nuvens

Terra, terra
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?”

Pausa para respirar...

domingo, 13 de setembro de 2020

SENTIDOS QUE ME MOVEM

 Como nos sentidos e significados, na  prática, vou me aprendendo budista



Isto não vai ser um texto inteiro, com todas as letras. Será, sim, um excerto, com sua inteireza pontual. Sem qualquer pretensão de esgotar um assunto, uma emoção, uma ocorrência, quero lhes contar de outros resgates meus; estes agora, sensoriais.

Já andei comentando pelas páginas da Louca, e até por outros espaços digitais, do momento  intenso de resgates, da memória, que venho vivendo. É tudo tanto que sequer consigo explicar para dar uma  noção da intensidade dos meus dias, vivendo presente e vários fragmentos do passado, tudo ao mesmo tempo agora, junto e misturado!

Haja coração para lembrar, de uma vez, de 15 anos de amizades, amores, lugares, temperos, pratos, cozinhas, trabalhos, países, lugares, pessoas, shows, cantores, bandas, arte, affff, cansei, lembrei, chorei! Muito!

Os resgates da memória vieram junto àqueles da emoção, como já contei também por aqui. Tô chorando à beça e tá gostoso sentir as lágrimas correndo com apertos maiores ou menores no  peito... ou flores na boca! Venho repetindo desde sempre que não vou mudar ... eu sou é eu mesma e é muito gostoso resgatar um pedaço tão forte do eu mesma (ou do self, como queira, Jung!)!

Desta feita (!), os resgates que me movem, me assustam, mas deslumbram, são os resgates sensoriais. Meus sentidos foram todos afetados pelo trauma, cada qual à sua maneira.

No início não caminhava e hoje manco (eu não sei, mas é o que dizem). O lado direito do meu corpo ainda não tem a mesma coordenação ou sensibilidade. Apertavam uma minha mão e às vezes tinha a impressão de estarem apertando a outra. E ainda não sinto o toque de um lado da mesma forma que do outro (tato), mas já melhorou 90%, digamos. Fruto, creio, da hemiplegia que tive (paralização da metade do corpo – metade direita).  Tô nos últimos passos desta estrada e ela não vai dar em nada, ya lo sé!final deste caminho!

Também não ouvia bem de uma lado. Adivinha? O direito... mas hoje escuto o dobro dos dois lados... cuidado  comigo! ;-)

Não sentia cheiro de nada e pior, quando sentia não distinguia. Imagina: manjericão = cebolinha = gengibre. Perfume francês = boticário = colônia. Incêndio = gasolina = álcool.

No paladar, tinha uma variável diferente. Sempre senti o sabor de tudo MUITO BEM. Mas não distinguia nada, nunca. Minha teoria é que a conexão dos terminais do paladar e do cérebro se desfizeram. Assim, eu sentia e ‘identificava’ um sabor. “hummm, que delícia. Este sabor eu conheço muito. Já comi demais.” E afirmava: “gengibre”. “Não, manjericão”. Deu para entender o nível?

Parêntese necessário: imagina a dificuldade para uma pessoa que gosta tanto de cozinha, feito eu. Não distinguir aromas. Distinguir sabores, mas não saber, sem provar E LER O NOME, o que é o que! Tenho que ir provando e fazendo, TUDO. 

Na visão, durante muito tempo enxergava duplicado. Culpa do olho direito. Acredito (teoria minha) que em função da hemiplegia do lado direito. Mas isto passou há uns 4 ou 5 anos, não sei precisar.

Pois é, tato, visão e audição já tinham melhorado. Agora foram paladar e olfato, no mesmo dia, em momentos diferentes.

Almoçando uma tilápia toda cheia de condimentos, com pimentão vermelho e amarelo, cebola roxa, gengibre e pimenta do reino, distingui a pimenta do reino moída na hora, pela maneira que a senti intensa no prato. É uma diferença muito sutil para um paladar desconectado feito o meu, que sentia, mas não distinguia, NUNCA. Percebi, perguntei e confirmei. (como o seu uso não é hábito em casa, não a  moída na hora, minha percepção foi deveras autêntica). Senti o sabor e dei nome aos bois! Putzgrila!

Voltando para o quarto depois do almoço senti um cheiro de limpeza gigante. Um cheiro que não nada há 12 anos. Perguntei Fatinha e ela me contou que usou um produto de limpeza xyz, que ela  já tinha usado trocentas outras vezes pela casa  toda, incluindo meu quarto. Mas eu nunca senti nada nenhuma vez e ali senti, INSTANTANEAMENTE. Foi só pisar no quarto. Né pouco não, tá?!

Olfato e paladar, no mesmo dia,  de uma vez. Deixa eu contar para vocês. Tô virando budista! Aprendendo valores em uma escala toda diferente de tudo que aprendemos desde sempre.  Ando conseguindo olhar através das coisas e enxergar significados. Significados perdidos, ausência sentida e confirmada, significados reencontrados ou mais forte, reconstruídos. Poliana que sou, isto tem me feito muito bem.

E é tão gostoso aprender na pele, nas vísceras, os múltiplos sentidos da vida. E pouco a pouco, resgatá-los. Sai do corpo, de sua mecânica, passa pelos sentidos e sua orquestração conjunta e atinge os afetos e sentimentos porque são onde pousam nossos sentidos plenos e insaciáveis.

Hoje, me sinto inteira e sinto, muitas vezes, os sentidos sincrônicos, em uma sinestesia muito completa. Uma música tem sabor e aroma. A comida dança  em meu paladar, embalando a música que aquela memória também resgata. Tem som que toca a gente, revira o estômago e o coração. Eu ando de cara para as lembranças e os sentidos e os sinto todos junto a mim, todo o tempo.

Não mexe comigo, que eu não ando só!

(isto era para ser um excerto mas 37 minutos depois, olha o tamanho do texto que saiu – é o tanto que isto tudo tá me fazendo bem!)

 


terça-feira, 1 de setembro de 2020

Resgates em ebulição


O processo intenso de resgates hoje, 12 anos depois de tudo  tanto, me faz perguntar sempre quantas vidas eu vivi

Algumas coisas têm uma linha do tempo muito particular.  Com idas, vindas, estagnação, retrocesso, movimento retilíneo uniforme (quem lembra das aulas de física? ;-), picos, aceleração e outros modos, para os quais eu não tenho vocabulário.

Meu processo de recuperação teve e tem (ainda, 12 anos depois de tudo!) curvas muito alongadas, mas sempre do lado positivo. O que eu vou conseguindo, como vou conseguindo, os detalhes de minha superação, que eu, virginianamente contabilizo, são muito motivadores, apesar do tempo.

Mas bota meu nome aí nesta equação. Apesar de serem 12 anos, ser poliana (a minúscula, o significado) faz absoluta diferença para nesta equação só constarem parcelas (termo de uma soma) ou algumas vezes até multiplicadores, mas nunca subtraendos ou divisores.

O que venho lhes contar aqui é isto. Hoje (mas hoje, presente contínuo) experimento uma etapa multiplicadora, exponencial talvez, não sei dimensionar. E virginiana conteudista nas horas uteis e inúteis já tenho teorias orquestradas para explicar esta avalanche de significados que me invade... e entorpece, muitas vezes.

A primeira e certeira (porque não há dúvidas, neste campo) é a leitura. Há uns 4 ou 5 meses, voltei a ler livros, com fluência. 12 ANOS DEPOIS! Sim, eu já li alguns neste tempo todo, mas sem cadência e sempre anotando o que ia lendo, em uma espécie de resumo cola, para a próxima vez que pegasse no livro, no dia seguinte, saber em que universo eu estava passeando.

Lia 1 ou 2 livros por ano, em média, porque me era um exercício desgastante. Fora isto, vivia de jornal, links, notícias, às vezes contos. Assim, voltei a ler, no cotidiano, há uns 4 meses e já estou no 4º livro. E pirando. Minhas conexões e lembranças estão mais ágeis e eu não tomo notas em resumos ou paro na página 57 perguntando quem são estes, porque eles estão agindo assim, porque aconteceu aquilo. Sim, às vezes me perco, mas conectando sinapse a sinapse, alcanço o fio da meada. É um puta prazer reconquistado 12 anos depois de tudo, então, tem um valor muito pleno.

A segunda teoria é coisa minha. Com o traumatismo em grau grave (!) perdi a capacidade de me emocionar com qualquer coisa, como sempre fui EU (mesma!). No início, não me emocionava com nada, cinema, literatura, realidade, arte. Constatava, racionalmente, que, sim, aquilo era emocionante. E ponto. Nem uma lágrima, nem um lamento ou suspiro.

Há uns três anos, voltei a chorar. Feliz da vida, com esta resgate, às vezes forçava a barra. Mas não era fácil. Chorava em algumas ocasiões especiais. Meu algoritmo aqui ficou super seletivo e eu não me identificava ou enquadrava em nada.  Pouca gente, alguns fatos particulares, raríssimos pedaços de filmes ou livros (talvez porque não lia!).  Mas já estava aceitando este fato, sem drama (até porque não conseguiria chorar, não por esta razão!).

Há alguns poucos meses voltei a chorar com tudo, para tudo. Cinema, literatura, música, beleza, pessoas, notícia, ações, reações, realidade, lembranças (!!! aqui é celebração dupla, pela memória, em si e pelo choro com ela!) palavras, descobertas, meu filho.

E a minha teoria é que a emoção tem papel forte na cognição. Penso que há fatos que vou lembrar para sempre por causa da emoção neles embutida. Mas como eu estava sem emoção, não lembrava porque não sentia.

Sabe a tão falada hoje, memória afetiva? Pois, a minha estava desligada e agora é um torpor muito lindo e intenso. Lembrando coisas tão significativas que ficaram em off por 12 anos. Está tudo em meu estômago, flores revolvendo, tão visceralmente que é impossível descrever. Tudo tanto, suas músicas e palavras. É tanto resgate de uma vez que respirar fundo é meu modus natural.

Algumas coisas, quero trazer de volta ao meu presente, algumas estão bem na configuração de lembranças e outras ainda, quero fazer futuro.

Trago outras vidas comigo e mais que nunca vou cumprindo meu epíteto que Poli são várias!

domingo, 19 de julho de 2020

ON THE ROAD IN INDIA - GOA EXPRESS

Acordei às 4:00 AM no trem, preocupada... Não sabia o horário exato de nossa estação.

Me informei com as mulheres da cabine. Seria a próxima. Descemos em DADAR, tomamos o trem local e fomos dali a VT - Vitória Station. Esperamos deitadas no saguão por hora e meia or so nosso trem para GOA.

Ali conhecemos um inglês que está viajando a Índia de bike, mas está com medo da guerra e vai deixar o país..


Embarcamos no GOA EXPRESS às 7:20. Dormimos bastante e estudamos nossas possibilidades no LONELY PLANET, o que fazer em GOA. Bem, first of all, qualquer que seja o tour programado, straight to PALOLEM BEACH, mais que recomendada por todos que já navegaram por estas bandas!

Não encontrando fotos do GOA Express, peguei na web, mas depois achei. Adivinha qual é!? ;-)

Chegamos à estação de Madgaon a Canacon e depois seria rickshaw até PALOLEM.
Como o ônibus estava muito cheio, fomos, as duas, na frente com o motorista. Exclusividade! Lindas paisagens no caminho. Realmente o verde do sul escarnece da secura do norte. Que contraste!

E aí... ... o ônibus PIFOU, óbvio! Estávamos nós, no meio da estrada! Arranjaram-nos uma carona que na verdade era um táxi e queria uma fortuna: 150.0 Rúpias. Alguns minutos e muita barganha depois reduzimos para 70 Rs, ainda com um gosto de que fomos enganadas.

Procuramos o hotel que o Martin, trainee alemão conosco em Baroda, nos indicou: Flavia's Paradise. Decidimos ficar. Quartos bem simples, banheiro coletivo, mas tudo limpo.

Antes de tudo, sentamos no sapé de frente ao hotel que funciona como restaurantes e... beer, please!

Estávamos ABSOLUTAMENTE cansadas, pregando. A cerveja desceu feito ÁGUA.

Conhecemos o BASIL, um suíço recém chegado à Ìndia, vindo do Paquistão, escrevendo uma carta.

Perguntou-nos se tínhamos o endereço do céu. O amigo para quem havia escrito a a carta, tinha falecido.

Eu, Eunice e Basil em outra ocasião - jogo do Brasil copa 2020


Foi assim que o conhecemos.

Convidamos para jantar conosco. No caminho caiu uma CHUVASCA (monções!). Sentamos em um barzinho simples e aconchegante com pequenos lampeões em cada mesa. Pedimos peixe, cerveja e conversamos. Basil tem viajado o mundo sem rumo. Parece um cara interessante. Eu e Eunice, pregadas, voltamos ao hotel à meia noite!

(até aqui, nada de fotos bonitas ou diferentes, só o início do caminho. No próximo passo da estrada começamos a ver coisas legais!foge não que eu prometo melhorar!)

quinta-feira, 9 de julho de 2020

ON THE ROAD - INDIA


07/06/2002



Enfim, viajando pela Índia. Esperei muito por isto. Eu e Eunice já contávamos os minutos.

Encontrei os amigos para um bye bye. Os trainees, Sajid, Atalah e Fayek. Dhruv veio me ver em casa, antes de sair.

Fomos para a estação,  VADODARA Railway Station, eu e Eunice. Nos últimos minutos, Atalah e Fayek apareceram. Como eu esperava! Eles não me deixariam partir sem um abraço!

Nosso trem saiu às 10:50 para Bombaim, estação Dadar.

Tudo nos conformes.

Seja o que deus quiser! Boa viagem!


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Eunice era uma trainee holandesa com quem dividia a casa em Baroda. (Éramos 6 trainees por casa, cada um de um país)

VADODARA é o nome da cidade que morei que também atende pelo nome de Baroda

Os amigos que foram se despedir de nós era uma turma de jordanianos de quem ficamos muito próximas!

Cenas dos próximos capítulos: a cada estação, trago um, com fotos, que prometo procurar malas afora!




sábado, 4 de julho de 2020

A LIBERDADE DE CADA UM

A Liberdade protagonista
Sempre que chego ela já está ali, sempre um grupinho ao seu redor ou sempre em outro grupo ao redor de alguém. A senhora do cachorro vestido parece ser algum personagem importante da cidade, alguma ilustríssima dama que eu, distante de tais ilustrações, ignore.

Ou então, é tão somente uma senhora desinibida e simpática, dedicando suas manhãs aos também ilustres, porém desconhecidos, que por ali passam e por ali se deixam ficar.

Sempre que chego, ela já está ali e sempre que saio, ela permanece. Pouco importa se chego 9, 10 ou 11 e saio 10, 11 ou 12. A senhora do cachorro vestido passeia seu cachorro vestido por horas a fio, religiosamente, todos os dias, sempre indefectível com a gola da camisa polo aparecendo por cima da blusa de lã xadrez. Xadrez como a roupa do cachorro vestido . Óculos escuros. Nela, não no cachorro.

De banco em banco da praça, senta-se com alguns, caminha com outros. Responde a todas as pesquisas de opinião que rondam a Liberdade (a praça!). E ela se deixa ficar. Até quando eu não sei. Um dia ainda fico para ver seu final, ou melhor, seu destino.

Quem sabe a sigo por detrás das árvores, depois dos carros, a descobrir quem é esta senhora e por que diabos passeia ser cachorro VESTIDO, TODAS as manhãs, a manhã toda.

Aposentadoria seria uma resposta pouca, vazia, insuficiente. Ademais, a senhora não me parece idosa. Me parece, antes, assim, em termos pouco graciosos, coroa.

Aposentadoria, solidão, loucura. Para quê mesmo eu quereria uma razão? Feliz a senhora do cachorro vestido se tem as dela ou se delas não precisa.

Razões suficientes, parece, as tem o senhor meu vizinho de fugir de meus olhares e meus passos intermináveis around the square. Razões que compreendo.

Eu que o encontrava, o senhor meu vizinho, no elevador do edifício Sobrado, subindo ou descendo correndo com seu terno e sua pasta de couro preta.  Ele que corria entre 'bons dias' e 'boas noites', queda-se sentado em um banco, escondido por trás de uma estátua.

Me evita. Nenhum bom dia. Eu passo olhando para o outro lado, para o Palácio do Governo, solidária a sua frustração de se descobrir, de repente, desnecessário dentro de casa, afastado da dignidade de seu terno, sua pasta preta de couro, sua pressa e seu estresse.

Sua mulher decerto move céus e terra, quer dizer, mesas e cadeiras, panelas e frigideiras, por toda a manhã! E nesta turbulência matinal, a presença do marido rondando, tornou-se um estorvo.

Ele que, há décadas, só chegava à hora do almoço, para sair hora e meia depois, fica agora sapateando o chão  encerado, farejando as panelas, rondando.

Até tenta ler seu jornal no quarto, na varanda, calado e quieto, quase invisível. Quem dera. Lá vem a mulher de vassoura, rodo, pano de chão, todo o arsenal. - Levanta o pé, tira o sapato, não pisa aí, dá licença um minuto!

Refugiou-se na praça. Acreditou-se confortado por um possível anonimato, buscando em seu conforto, a fuga das justificativas, que ninguém pediu. Decerto pergunta-se: para que, afinal?

Quisera eu não causar-lhe o tormento de procurar o anônimo sossego em outros sítios!


domingo, 14 de junho de 2020

DOS PAUS PARA A CANOA

De como o lado prático dos MEIOS desmancham a poesia de qualquer FIM!

texto de 2000 encontrado perdido (!)


Fiquei muito tempo pensando se iria direto ao ponto, postando somente  um meu texto antigo que achei perdido em casa ou se faria legendas, contextualizações, etc e tals para aquele texto encontrado e identificado!

É que achei aqui em casa, em Nova Era, entre as minhas intermináveis caixas de mudança vindas de SP (há quase 5 anos!) uma especial, cheia quase totalmente de diários pós acidente. Diários do tipo agenda/HD externo, uma vez que me faltava a capacidade de processar lembranças, de qualquer peso, importância ou distância no tempo.

Bom, folheando os cerca de 30 caderninhos, para separar os que quero guardar, encontrei um anterior ao acidente, anterior a SP e que, folheando, vi datas de 2000, 2001 e 2003. Entre material de aulas de espanhol, de francês, de teoria e prática cambial, apontamentos sobre umas 10 faculdades e universidades na Espanha (será que eu queria uma pós ou mestrado lá?) e alguns poemas (não sabia que eu escrevia poemas, mas me reconheci neles), encontrei um texto que me identifiquei na primeira leitura. Não me lembrei de nada, mas sou eu!  E quero trazê-lo aqui.

Até agora, então, era contextualização, somente aqui começamos a indagação DOS PAUS PARA A CANOA! Então, vamos lá:

Cansa-me o lado prático das coisas. Decido-me: vou fazer isto. Antes, quero fazer isto. Sim, porque antes mesmo que eu termine a sentença, uma palavrinha inútil se interpõe entre mim e meu projeto: como?

E aí gasto eu horas, meses (anos, sabe-se lá!) a devanear sobre os meios e recursos necessários. E lá se vai minha convicção, passadas as horas, os meses, sem que eu tenha respondido à palavrinha enxerida e arrogante.

Cansa-me pensar no meio de locomoção quando só quero chegar. Pensar no dinheiro, quando só quero ter.  Deus, como me cansa pensar com quantos paus se faz uma canoa.

Dormindo somos mais eficientes. Sonhando, querendo, temos! Não há meios, recursos ou dificuldades que se interponham ou nos impeçam do que seja.  Se quero subir às nuvens, imediatamente estaciona uma nuvem a meus pés.

Mas todo o resto requer caminhos e (des)caminhos. Às vezes longos, difíceis e ainda assim incertos.

Talvez por isto minha inclinação por SONHAR!