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sábado, 23 de fevereiro de 2013

'sou do mundo, sou Minas Gerais'




Em shows que celebram 50 anos do cantor e compositor no palco, o projeto ‘Música do Mundo’ apresenta a irretocável obra de Milton Nascimento, com direção musical de Wagner Tiso.

O projeto traz canções de diferentes momentos da carreira do autor, na voz de grandes nomes da canção popular, autores que o admiram.

Mônica Salmaso, Mercedes Fraga e Renato Braz  formavam o time ‘miltoniano’ da noite, no SESC Pompéia e se revelaram  requintados intérpretes do cantor, dando às canções a densidade que a obra pede, com emoção declarada de fazê-lo.

Grandes nomes da cena instrumental brasileira traziam sofisticação a acordes mineiramente familiares e estabeleciam, assim, conversa íntima com a emoção.

Juarez Moreira no violão, Robertinho Silva na bateria, Dirceu Leite no saxofone e na flauta, Luiz Alves no baixo elétrico e Caíto Marcondes na percussão se somavam aos três intérpretes, trazendo um show meio instrumental, meio cantado, mas inteiro rico e denso.

Para mim que, ‘sou do mundo, sou Minas Gerais’, Milton é Minas para se ouvir com o coração.  Música que traz elevação, pelo tom de arte. Pura sublimação.

Ao final, Milton e Minas, indissociáveis, ressoam  no peito.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

em ebulição



Eu, ao contrário do que andei lendo por aí, antes de ver o filme, sabia, sim, quem é Jorge Mautner. Veio daí minha opção por ele em um sábado à noite.  Mas não tinha a dimensão de seus significados ou mesmo de sua personalidade.

Com vasto material de arquivo entremeado por performances atuais, ‘Jorge Mautner, O Filho do Holocausto’, narra a evolução artística de seu protagonista. O filme proporciona uma viagem. Melhor, duas: pela vida e mente do artista. E caminho afora, ganhamos a dimensão da genialidade de um cara movido pela arte. E em ebulição.

No conteúdo, o ‘doc’  traz um pouco de tudo o que o gênero costuma mostrar. Múltipla como sua fonte, esta história se faz de muitas peças. Uma cinebiografia recheada de imagens e performances, novas e antigas, ricos depoimentos de seu entorno afetivo e profissional; tendo como pano de fundo o contexto histórico de seu tempo e sua vida.

No início, nos vemos  frente ao filho do holocausto. Começamos nesta estrada, com a vinda de seus pais ao Brasil e sua relação com a segunda guerra mundial. Aqui, ele se torna membro do Partido Comunista e é, assim, exilado nos EUA e em Londres, onde conhece Caetano e Gil, então tropicalistas. É dada, então, a da largada para o Mautner que conhecemos, artística e culturalmente tão nosso e tão rico!

Na forma, no entanto, é que o filme vai além.  Aqui é, também, uma linguagem múltipla e segmentada, mas original.
Em alguns momentos, o artista lê sua biografia, se interpretando, personagem de si. Em tom dramático, poético, algo filosófico, mas lúdico, por fim; Mautner nos traz Mautner, em diversos níveis de metalinguagem.

Os depoimentos, todos, ocorrem em um estúdio. Vários artistas, como Caetano, em forte participação, tecem elogios. Bial, diretor, interfere fazendo perguntas em cena. Sua filha Amora, em momento expressivo, confronta o e questiona o pai, amorosamente, acerca de sua infância insólita.

Destaque, também e ainda, é a trilha sonora composta por diversas canções suas executadas com esmero por forte time da música brasileira. Ali estavam e tocavam e cantavam, Nelson Jacobina, Kassim, Domenico, Pedro Sá, entre outros.

Assim, o filme é um grande show deste multiartista, com produção grandiloquente. Compositor, cineasta, personagem heterodoxo da cena cultural brasileira, Mautner se revelou, para mim, um poeta de ideologias. Múltiplos. Ele e elas.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

o que nos espreita


Não, ‘Amor’, o filme, não é um romance, como o nome sugere.  Não daqueles de trama adocicada, com trilha sonora envolvente e lágrimas rolando.História de amor profundo, sem sentimentalismos, no entanto; cujo tema, de fato, é a dignidade da velhice e o direito de escolha quando saúde e sanidade se esgotam.

‘Amor’ traz a história  de um casal de terceira idade interpretado pelos magistrais,  Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva. Veteranos na nouvelle vague francesa, eles vivem aqui, Anne e George que, na primeira parte do filme, dividem pequenos prazeres do cotidiano com graça, nas felicidades, nos obstáculos, na simplicidade do dia a dia. Eles bem desenham e nos envolvem nas sutilezas de um cotidiano partilhado há muitos anos, com doçura, carinho e respeito.

Mas Anne sofre um derrame e eles passam a encarar juntos severas adversidades. E em uma segunda parte da trama, várias sequelas e debilidades passam a dividir os dias com eles que, sozinhos, vivem uma gradual descida ao inferno, no detalhe. E eles enfrentam com dignidade a irreversível derrocada produzida pela doença e acentuada pelo envelhecimento.

Um tratamento delicado, fundado em sentimentos nobres. A confiança, a entrega , a maneira serena de encarar os fatos da terrível fatalidade que os acometeu, suas consequências e sequelas.  E é muito forte e intenso, no filme, o modo como eles vivem cada uma destas sequelas, cada deficiência, com absoluta consciência do degradar da velhice que os espreita.

Não é um filme fácil, mas comove pela inteligência e sensibilidade adultas ao retratar a vida de maneira crua e realista, mas delicada e densa.

Trintignant domina o filme simplesmente de modo magnífico, nobre, corajoso. A dureza dos cuidados cotidianos revela uma  cumplicidade incomum e o desenrolar das opções à frente deles é conduzido com grande respeito a tudo o que eles sempre foram.

Em Anne, a progressiva transformação dos gestos, expressões e movimentos, no decorrer da história, destaca uma atuação impecável. A maneira como sua elegância é despedaçada e vai cedendo espaço às falhas no  corpo, em meio a tanta dor e sofrimento, conduz, insistentemente, a uma pergunta:  vale a pena viver desta forma?

Os conceitos de certo e errado, moral e imoral vão sendo desconstruídos a cada sequencia. A miséria humana se mostra um peso insustentável diante do drama que eles vivem e da dimensão do 'irreversível' que os espreita.

O filme passa, de forma clara e forte, a mensagem de que é diante das adversidades e dificuldades que se 'prova' o amor de fato. A coragem  é forte  no filme, este ‘grito’ pela liberdade individual, pelo direito de escolha em momento tão extremo.

Trata-se de um filme que deixa o espectador triste e pensativo sobre o fim inevitável de uma vida, mas não manipula o pranto. Faz refletir. É tudo conduzido de forma lenta, gradual e crua.  Não há nenhuma glamorização.

Emocionalmente, é um nocaute. O filme se traduz em uma tentativa de conferir inteligibilidade a um gesto extremo e radical  e nos mostra, com crueza, algo que nos esforçamos por não nos lembrar: a inexorabilidade do fim.