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domingo, 30 de setembro de 2012

uma viagem tropical




Cenas históricas encadeadas e costuradas com depoimentos atuais dos protagonistas de então.  Um belo trabalho musical com uma trilha sonora que é, antes de tudo, personagem. Memórias eloquentes de um período culturalmente efervescente.

Tropicália, documentário de Marcelo Machado, reconstrói este movimento que foi muito além da música e traz, além de tudo, uma contextualização das referências (todas e muitas) desta turma.

“Qual é a cola que juntou estas pessoas todas?” Verdade, Sérgio Dias (Batista, o Mutante), o sincretismo dava a cor do movimento; síntese da cultura genuinamente brasileira em consonância com o que se produzia ao redor do mundo.

A Tropicália era, antes de tudo, um movimento cultural mestiço. Muito além da música de Caetano, Gil, os Mutantes e outros, diversas manifestações artísticas, de forte conteúdo ‘tropical’, davam as cores deste movimento multicultural: o Cinema Novo com Glauber Rocha; o teatro com a iconoclastia de José Celso Martinez Corrêa, as artes-plásticas, com Hélio Oiticica a quem se deve, inclusive, o nome do movimento.

Tropicália era uma instalação sua que era, segundo ele “a 1ª tentativa consciente, objetiva de impor uma imagem obviamente brasileira ao contexto (…) da vanguarda e das manifestações em geral da arte nacional.”

O filme é uma viagem hipertextual de sons e imagens, uma imersão nas referências todas de uma época buscando responder uma pergunta: O que é a Tropicália, afinal? Em indescritível participação, Tom Zé nos traz sua explicação e nos convence, melhor que ninguém, que o movimento é inexplicável!

Assistir a eles se vendo, se comentando e se explicando nos dá a dimensão dos contornos afetivos que o movimento ganhou. Nos envolve e nos embala com estas canções tão significativas para todos e para a história do país, até. Canções que falaram alto na formação musical (e política de alguns). Parte forte da trilha sonora de nossas vidas.  Faz viajar no tempo.

Um documentário informativo que, sem ser muito didático, nos conduz por um recorte musical e por adjacências culturais de uma época que diverte e emociona por equivaler a um mergulho naquele tempo. Se imbui na mesma energia do movimento, nos levando, todos, a uma viagem.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

sem rótulos



Um som de raiz MPBística, envolvido (e colorido) por samples. Canções de caráter emotivo, trazendo influências de outros ritmos como Eletrônica e Afrobeat. Uma releitura moderna do clássico voz e violão?Algo Eletrônico Acústico?  Um som… difícil de catalogar.

Nascido em Salvador, Lucas Santtana não é parte dos ‘novos paulistas’,  onde a gente já começa buscando alguma identidade, devido ao ‘quê’ contemporâneo de suas canções.  Nem tampouco dos Novos Baianos (!!!).

Com um trabalho em tom intimista e denso, imerso em recursos ‘sampleados’, Lucas nos apresenta uma síntese do tradicional e do novo. Uma mistura rica que traz originalidade à sonoridade proposta. 

Uma releitura da MPB, com uma levada, digamos, contemporânea, carregando ainda algum regionalismo diverso.

sábado, 22 de setembro de 2012

o som e o sentido



Em show chamado ‘O Fim da Canção’, em referência a (e rebatendo) uma declaração dada por Chico Buarque em 2004, Arthur Nestrovski, Zé Miguel Wisnik e Luiz Tatit lançam DVD homônimo trazendo … canções.

São 23 temas autorais dos ‘pensadores de música’, com significados subjacentes, imersos em  poesia, estilos e ritmos.

É toda a extensão, profundidade e sonoridade de nossa língua somadas à sua literatura e poesia. Uma bricolagem de nossa produção poética e literária feita música.

Perfeita equação de vocábulos, sons e significados. A soma desaguando em poesia e música.

‘O som e o sentido.’

domingo, 16 de setembro de 2012

o bispo da bienal



Signos que se (e nos) atropelam. Visíveis e, algumas vezes risíveis, restos do cotidiano; produto final de uma (sua) relação com eles.

Em reunião inesperada de elementos, cheia de cor e objetos, em forte soma de significados, Artur Bispo do Rosário é  o grande homenageado da 30ª Bienal de Artes de SP, que este ano reúne 111 artistas.

Com uma área de dimensões mais generosas que a maioria dos espaços expositivos, em apresentação superlativa, a produção de um indigente negro e nordestino, diagnosticado como esquizofrênico/paranoico e que viveu 50 anos de sua vida em uma instituição destinada a abrigar doentes psiquiátricos.

Diante da grande e variada produção do artista, que tinha na arte o produto final de sua relação com o cotidiano, diante de tamanha profusão de significados e questionamentos, diante de suas inquietações, nos questionamos das fronteiras e da relação da loucura, da razão e da arte. Em território subjetivo, criando tantos significados e produzindo sentidos multiplicados, Bispo nos deixa certos da forte relação de arte e loucura, nos trazendo toda uma linguagem sua.

São mantos e estandartes repletos de inscrições, palavras bordadas imersas em classificações, objetos escultóricos feitos a partir de descartes.

Ele criou um ateliê na Colônia Juliano Moreira, manicômio em que passou mais da metade da vida, e ali passou a usar lixo e material reciclado para compor sua obra. “ Não sou artista. Sou orientado para ser uma coisa desta maneira.” dizia. E o que seria o artista que não alguém orientado desta maneira?

A Bienal este ano traz o tema “Imersão das Poéticas. E arte contemporânea é isto. Uma apropriação poética de tudo que nos toca os sentidos e nos revolve o pensamento. Ela questiona e desafia os limites da arte, ampliando-nos. É o olhar.

E Rosário nos traz o emaranhado poético que vibrava dentro de si. O sentido lírico de suas construções, dentro das paredes de um manicômio, nos envolve e nos revolve. Porque ele trazia a arte no pulso.




terça-feira, 4 de setembro de 2012

tão longe, tão perto



Philippe é um milionário colecionador de artes que ficou tetraplégico após grave acidente. Ele precisa, assim, contratar um ‘cuidador’ para todas as mínimas funções do cotidiano. E é esta contratação e a conseqüente relação dos dois, o mote de ‘Intocáveis’.

Em uma série de entrevistas, cansado de profissionais bonzinhos e adestrados para a situação; pretensos abnegados que juram  adorar cuidar de deficientes como ele, Philippe encontra e entrevista Driss, que, a priori, nem queria, de fato, o emprego. Um ‘ex-ladrão’ em condicional que precisa, periodicamente, comprovar a busca por trabalho para não perder seu seguro-desemprego e faz a  entrevista certo de que não seria ele, um ex-presidiário, contratado para cuidar de um milionário tetraplégico.  Não com estes títulos  estereotipados que ambos carregam. Ele queria, na verdade, tão somente uma assinatura que atestasse sua busca e garantisse, portanto, seu seguro.

Justamente em função de seu tom arredio e sua total ausência de compaixão ou piedade diante de alguém imóvel em sua cadeira de rodas, diante da naturalidade de seu tratamento, Driss chama a atenção de Philippe, que decide contratá-lo; mesmo diante de toda inexperiência e da falta de ‘tato’ que ele traz consigo.

Eles vão se afeiçoando um ao outro e começam a conhecer melhor daquele distante pedaço de mundo que cada um deles carrega consigo. Mundos avessos, sem interseções, significados que não se cruzam. 

Deste ponto em diante o roteiro nos brinda, de forma divertida, com uma interação crescente entre dois homens que estão em extremos opostos, mas que se sentem, mais e mais, próximos e começam, também de forma muito bem humorada, a compartilhar  do mundo um do outro, construindo algumas interseções. Um deleite.

A relação começa a crescer com o ‘aprendizado’ desta outra realidade à espreita. E o filme não apela em momento algum para a pieguice e o dramalhão. Philippe começa a dirimir alguma autopiedade e readquire bom humor. Driss vai, aos poucos, aprendendo sua função e ganha novas referências. No campo artístico, principalmente e muito comicamente pontuadas. 

É sua surpresa diante de uma apresentação de ópera e diante dos preços em uma galeria; é o momento em que ele pinta um quadro e Philippe se diverte vendendo como uma nova promessa do mundo artístico. É o preço que seu quadro alcança. E é vendido.São as surpresas que trazem um mundo absolutamente novo que se revela distante em cada detalhe. Uma lógica própria.

Apesar de toda a diferença, eles encontram diálogo e quando aí chegam, emociona. Aos poucos, a amizade entre eles se estabelece e o estranhamento já não dá o tom de sua relação. A química entre os dois protagonistas é evidente. Dos atores e dos personagens. 

Marcante é o tom com que são pontuadas tantas diferenças e a naturalidade com que se constrói uma relação de opostos tão evidentes culminando em cumplicidade. 

Um  enredo absolutamente leve, divertido e, sim, tocante!