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quinta-feira, 12 de outubro de 2017

espiritismo: instinto e rendição



Que assim seja!*

Foi meu primeiro pensamento ao sair de uma sessão espírita, a minha primeira desde sempre, à busca de respostas a uma vontade de espiritualidade nascente em mim. E ela veio, deixei que ela viesse, em função de uma identidade percebida, devagar e desde há muito, com os princípios desta, digamos, filosofia de vida. 

Conheço pouco ou quase nada, mas sempre que ouvia ou lia algum de seus alicerces ou preceitos filosóficos, concordava ou inclinava o pensamento em um ângulo que permitisse convergências e interseções.  E sempre me prometia procurar um centro, ler mais, buscar, tentar ou conhecer alguma coisa antes de adotar como uma minha coluna cervical espiritual ou algo do gênero, mas nunca tinha alguma (nenhuma) pro atitude para buscas ou pesquisas ou leituras ou o que quer que me conduzisse por seus caminhos que, pela afinidade latente, me prometiam um encaixe ou conexão etérea. 

Mas adequado à filosofia espírita,  quando o momento chegou, ele se plantou e me tomou, de alguma forma, sem que eu planejasse ou me desse conta, inteiramente.  Na mesa do Café São José, após sessão no Cineclube da cidade, dividindo uma cervejinha com os cinéfilos de plantão, alguns deles falaram, a uma certa altura, de uma ida em grupo em um centro espírita de São Domingos do Prata, cidade vizinha e citaram o que o local trazia de novo e atraente, ao que eu me habilitei e candidatei  instantânea e prontamente. E fui. 

No dia seguinte, ainda a caminho, fiquei sabendo de minha tia, que se tratava de um casal de médiuns que abria as portas de casa (que era junto ao trabalho e à fazenda)  e recebiam muitos ali, uma vez por semana para uma sessão que vinha ficando conhecida e atrativa na região. 

Ao chegar, primeiro me surpreendeu a absoluta informalidade de tudo (tanto). Pessoas sentadas nas escadas, em cadeiras, no sofá, à mesa, pessoas na cozinha, em seu balcão, enfim, em todo canto havia uma alma (!)

Sentei no sofá e minha primeira impressão começou, muito prontamente, a me alimentar um nó na garganta. Não sei porque. Ouvir a música, ver o lugar, a informalidade, as pessoas, seu comportamento, sua entrega, sua leveza me fez chorar.  Não sabia (e não sei) porque, mas me permiti. Instinto e rendição nomeiam bem minha reação. Senti uma leveza tão grande que não consegui segurar e me permiti, me entreguei e chorei. 

Eram depoimentos, psicografias espontâneas, música, leitura do evangelho, comentários, choros, abraços, tudo junto e misturado em uma sessão absolutamente participativa. O fato de não haver um altar, púlpito ou um palco e das vozes serem descentralizadas dava um tom orgânico a tudo e reforçava minha sensação instintiva de encaixe.  Por instinto eu me sabia em casa, por instinto eu interpretava e fazia uma minha leitura significativa e positiva de todas as atitudes, participações e inserções porque, como foi dito a certa altura, cada mente vive na companhia que elege. 

As leituras, inserções, psicografias não tinham, em nenhum momento, um cunho doutrinário ou taxativo. Falavam em entender, sentir, respeitar, cantar, amar. Palavras de muita leveza e sabedoria precediam e concluíam cada leitura do evangelho, colocando-os como metáforas de guias de conduta moral e comportamental.  Elevar o pensamento, emitir luz, entrar em sintonia. 

Os pensamentos, ensinamentos, posturas, abertura, música, comportamentos transmitem uma paz indescritível.  Uma reflexão que me levou longe e longe me deixou, reflexão que me ganhou a adesão àquilo tudo, baseada em citação de Einstein: “Tudo é energia e isso é tudo que há”. 

A interpretação é de cada um. A entrega é minha.

* Espíritas, em geral não dizem amém, mas 'que assim seja'. Amém tem origem hebraica e significa que assim seja, mas preservar este termo em sua origem, carregaria algo de dogmático, avesso à autonomia da vontade, tão presente no ideário espírita.  Mas não é regra taxativa ou absoluta, como nada o é por aquelas 'bandas'. Cada um usa em suas preces, o que lhe parecer mais forte e verdadeiro!

Um comentário:

  1. Influência do cumpadre Quelemén de Goés...
    Muito pouco sei disso, mas acho incrível a ideia de "salvação coletiva" enquanto sociedade e compromisso com o coletivo, ao contrário da "salvação individual das religiões em geral...

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